Editorial
Paradoxo
da comunicação
Nunca
antes se
discutiu tanto a epistemologia da comunicação. Ao
mesmo
tempo em que os estudos de comunicação e os
estudos da
cultura ganham mais visibilidade e importância no Brasil,
busca-se tanto a definição dos limites da
área de
atuação quanto a definição
de suas
interfaces e de sua necessária permeabilidade com outras
áreas e campos de pesquisa. Entre definir-se com autonomia e
compreender sua natureza permeável, a
Comunicação
vê-se em situação paradoxal.
Nesta
edição, a revista
Ghrebh- conta com quatro artigos de colaboradores internacionais
(Antonio García Gutiérrez, de Sevilla/Espanha;
Vicente
Romano de Madri/Espanha; Hans-Ulrich Reck, de Köln/Alemanha; e
Doris C. Rusch, de Viena/Áustria) e seis artigos de
pesquisadores brasileiros de diversos centros de pesquisas (Euro de
Barros Couto Junior e Tristan Castro-Pozo, de São Paulo;
Francisco José Paoliello Pimenta, de Minas Gerais; Kati E.
Caetano e Ana Cristina Teodoro da Silva, do Paraná; e Pedro
Carvalho Murad, do Rio de Janeiro). Em comum, em diferentes
níveis, esses artigos reproduzem algumas das
situações paradoxais da
Comunicação.
O sentido de paradoxo que encontramos nos textos aqui reunidos
–
como situações assim diretamente definidas por
alguns dos
seus autores – não é aquele que pode
ser
considerado sinônimo de antinomia ou paralogismo, mas sim
aquele
que se define como uma questão sem saída
(aporia).
E é a constatação de Antonio
García
Gutiérrez de que para resolver o paradoxo da
política
científica que existe nas linhas de financiamento da
comunidade
européia para os projetos de memória
européia e
patrimônio cultural – para ele é
paradoxal
comercializar os produtos da memória cultural para a
própria comunidade que subvenciona os projetos, assim como
é paradoxal a própria existência de uma
memória européia – é
necessário
utilizar um sistema epistemológico
não-convencional para
a avaliação dos projetos. Com a
experiência de quem
trabalhou como avaliador dos Programas Marco para financiar projetos
classificados dentro da proposta de “Sociedade da
Informação” para a memória
européia,
García Gutiérrez propõe a abordagem do
brasileiro
Newton da Costa (lógica paraconsistente) como um caminho
para
lidar com tais contradições.
Os questionamentos de García Gutiérrez sobre o
paradigma
tecnicista e neoliberal que atualmente domina o desenvolvimento dos
instrumentos de registro da memória cultural
européia
são especialmente relevantes para pensarmos
também a
política científica brasileira que opera em
paradigmas
que, embora ainda não sejam tão claramente
definidos,
são igualmente suscetíveis à neurose
tecnológica.
A neurose tecnológica também está
presente no
artigo de Hans-Ulrich Reck, professor titular da Escola Superior de
Artes da Mídia em Köln/Alemanha, na paradoxal
relação entre trabalho e tempo: para ele, o atual
modelo
organizacional capitalista protagonizado pelos novos meios
tecnológicos de informação prega a
realidade
virtual e o livre fluxo de informações
(“a
personificação da utopia de liberdade da
revolução francesa”) mas reproduz um
comportamento
informacional condicionado a um sistema “que não
permite
formas diversas ou heterogêneas de tempo, economias de
desperdício ou insistência em um tempo
livre”. Nas
relações entre tempo, trabalho e
desperdício, Reck
afirma que nas novas mídias o tempo de trabalho
não pode
mais ser a forma social predominante de tempo. O principal paradoxo
está justamente no fato de a maior individualidade
(subjetividade) obtida com a redução do tempo e a
predeterminação de escolha dos valores em meios
digitais
implica a maior dependência aos sistemas desenvolvidos pela
sociedade global da informação. Seu artigo
demonstra as
possíveis relações entre trabalho e
tempo, do
taylorismo e fordismo à sociedade do espetáculo
de
Debórd, apresenta uma ilustradíssima
comparação do tempo de trabalho da sociedade
global da
informação em oposição
à
“economia de bazar”(Clifford Geertz), e culmina com
uma
outra asserção paradoxal que muito nos deve fazer
refletir: “a sociedade não pode mais servir como
um todo
porque não mais existe como um todo”.
Vicente Romano, em seu artigo “Educação
cidadã e meios de
comunicação” propõe
uma Ecologia da Comunicação para lidar com as
contradições que não são
devidamente
contempladas pelas mídias e que podem ser resumidas na
contradição entre desenvolvimento
tecnológico e
progresso social. A situação paradoxal
apresentada no
artigo de Romano está no papel de educador e formador que a
mídia assumiu ao tomar para si a maior parte do conhecimento
que
é transmitido à sociedade (particularmente aos
jovens)
mas que, no entanto, não se coaduna com a
produção
em massa e suas principais características:
“simplificação,
redução,
uniformidade, generalização e
comercialização”. Este artigo
é um clamor de
resistência ao mundo cada vez mais mediado que não
nos
permite acesso ao outro, ao diálogo, é um
manifesto pela
solidariedade e um alerta para a perda dos sentidos pelos quais
percebemos o mundo com complexidade.
Dois outros textos desta edição preocuparam-se
com a
produção digital online. Doris C. Rush mostra o
atual
design do texto jornalístico na Internet, propondo
abordá-lo não mais como texto, mas como um
“evento
áudio-visual extensivo”, conceito defendido em sua
tese de
doutoramento. Para ela, o jornalismo online não cumpre
adequadamente a função de informar e entreter,
provocando
a insatisfação emocional do consumidor dessa
mídia. Francisco Pimenta, que também
propõe
analisar os sites da Internet, recorre ao conceito semiótico
de
“degenerescência sígnica” para
propor a
mudança de hábitos de conduta que promovam a
participação política direta
(democracia
participativa) por meio da utilização efetiva dos
recursos multimídia e multicódigos dos meios
online.
Percebe-se que, por caminhos diferentes, esses autores
também
buscam a dimensão social e educativa da
comunicação desejada por Vicente Romano.
Mais outros dois artigos que tratam das imagens técnicas
contribuem com o diálogo possível presente no
conjunto
desta edição. Kati Caetano analisa os efeitos de
sentido
de realidade da imagem fotográfica tomando por ponto de
partida
dois paradoxos: o da imagem que é justamente ser imagem, e o
da
fotografia que, mesmo sendo imagem, é considerada pelo senso
comum um meio de reprodução do real.
Daí,
direciona seu artigo para a discussão da imagem
fotográfica em relação de
“mestiçagem” com outras linguagens,
outros suportes
e outras mídias. Já Ana Cristina Teodoro da Silva
trabalha em seu artigo com as imagens que define como
“sintéticas”, particularmente as capas
de revistas.
Ao selecionar publicações separadas por 20 anos,
Ana
Cristina dá visibilidade para a
construção da
memória cultural, política e histórica
e a
ordenação do tempo como
características da
mídia.
Nos três últimos artigos, temos algumas
colaborações de pesquisas em música e
dramaturgia
para os estudos de mídia e cultura: Em seu artigo, Tristan
Castro-Pozo coloca o corpo-mídia no centro da
análise da
atuação do Teatro do Oprimido, entendido como
prática pedagógica, objetivando trazer
contribuição aos estudos de cultura e
comunicação. O dramaturgo Pedro Carvalho Murad
busca nos
mitos arcaicos a estrutura da produção ficcional
contemporânea. As várias possibilidades de
aproximação como real entre os produtos
artísticos
ou midiáticos também é objeto de
análise de
Euro de Barros Couto Junior, que organiza uma série de
relações entre as obras musicais e a
derivações que se apropriam de sua
criação
original. Não poderíamos deixar de notar o
paradoxo
expresso nessa relação de
imitação e
condição de eterna
derivação: segundo Couto
Junior, o objeto artístico torna-se real após sua
criação e, como tal, passa a fazer parte da
realidade, o
que significa que é suscetível à
aplicação de um dos processos de
imitação
(ou função do real), gerando novo objeto do mundo
real,
transformando a realidade.
De paradoxo a paradoxo, com este pacote de artigos da 7ª.
Edição, a revista Ghrebh- pretende continuar na
sua
proposta de promover os diálogos da
comunicação.
Boa leitura!
Luciano Guimarães
Outubro de 2005
Capa:
Agradecimento ao Artista Plástico Carlos Salgado pela imagem
do Quadro "Realidad y ficción" - Técnica mixta sobre lienzo
- 55 X 77 cm - 2003
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