GHREBH-, em indoeuropeu significava 'cavar, escavar', transformou-se, no germânico antigo, em /graban/ com o significado de 'escavar' ; transformou-se também em /graver/ (francês) com o sentido de lavrar em oco ou em relevo uma inscrição ou figura. As variantes GEREBH- ou GERBH- significam 'riscar, arranhar'. Dão origem ao anglo-saxônico /ceorfan/ 'recortar', ao alto alemão antigo, /kerban/ 'fazer uma incisão', ao norueguês / krabbe/ 'escavar'. Em grego deu /graphein/, como 'gravar, lavrar em baixo ou alto relevo uma inscrição ou figura, escrever'. Em latim /graphium/ significa 'estilo, ponteiro para escrever na cêra' e /graphiarium/ quer dizer 'estojo para guardar os estiletes com que se escrevia'. Dessa raiz comum vieram todas as palavras derivadas e compostas de gravar e grafia como biografia, gráfico, grafite, parágrafo, gravação, gravura. Também dessa mesma raiz provém o gre o /gramma/, com o significado de 'letra, linha' e seus compostos e derivados como programa, gramática, epigrama, anagrama, cardiograma e telegrama. (Fontes: Roberts/Pastor, Diccionario etimológico indoeuropeo de la lengua española; Kluge, Etymologisches Wörterbuch der deutschen Sprache; Faria, Dicionário escolar latino-português; Pokorny, Indogermanisches Wörterbuch)
brasil número 7 | são paulo | outubro de 2005   ISSN 1679-9100



Editorial



Paradoxo da comunicação

Nunca antes se discutiu tanto a epistemologia da comunicação. Ao mesmo tempo em que os estudos de comunicação e os estudos da cultura ganham mais visibilidade e importância no Brasil, busca-se tanto a definição dos limites da área de atuação quanto a definição de suas interfaces e de sua necessária permeabilidade com outras áreas e campos de pesquisa. Entre definir-se com autonomia e compreender sua natureza permeável, a Comunicação vê-se em situação paradoxal.

Nesta edição, a revista Ghrebh- conta com quatro artigos de colaboradores internacionais (Antonio García Gutiérrez, de Sevilla/Espanha; Vicente Romano de Madri/Espanha; Hans-Ulrich Reck, de Köln/Alemanha; e Doris C. Rusch, de Viena/Áustria) e seis artigos de pesquisadores brasileiros de diversos centros de pesquisas (Euro de Barros Couto Junior e Tristan Castro-Pozo, de São Paulo; Francisco José Paoliello Pimenta, de Minas Gerais; Kati E. Caetano e Ana Cristina Teodoro da Silva, do Paraná; e Pedro Carvalho Murad, do Rio de Janeiro). Em comum, em diferentes níveis, esses artigos reproduzem algumas das situações paradoxais da Comunicação.

O sentido de paradoxo que encontramos nos textos aqui reunidos – como situações assim diretamente definidas por alguns dos seus autores – não é aquele que pode ser considerado sinônimo de antinomia ou paralogismo, mas sim aquele que se define como uma questão sem saída (aporia).  E é a constatação de Antonio García Gutiérrez de que para resolver o paradoxo da política científica que existe nas linhas de financiamento da comunidade européia para os projetos de memória européia e patrimônio cultural – para ele é paradoxal comercializar os produtos da memória cultural para a própria comunidade que subvenciona os projetos, assim como é paradoxal a própria existência de uma memória européia – é necessário utilizar um sistema epistemológico não-convencional para a avaliação dos projetos. Com a experiência de quem trabalhou como avaliador dos Programas Marco para financiar projetos classificados dentro da proposta de “Sociedade da Informação” para a memória européia, García Gutiérrez propõe a abordagem do brasileiro Newton da Costa (lógica paraconsistente) como um caminho para lidar com tais contradições.

Os questionamentos de García Gutiérrez sobre o paradigma tecnicista e neoliberal que atualmente domina o desenvolvimento dos instrumentos de registro da memória cultural européia são especialmente relevantes para pensarmos também a política científica brasileira que opera em paradigmas que, embora ainda não sejam tão claramente definidos, são igualmente suscetíveis à neurose tecnológica.


A neurose tecnológica também está presente no artigo de Hans-Ulrich Reck, professor titular da Escola Superior de Artes da Mídia em Köln/Alemanha, na paradoxal relação entre trabalho e tempo: para ele, o atual modelo organizacional capitalista protagonizado pelos novos meios tecnológicos de informação prega a realidade virtual e o livre fluxo de informações (“a personificação da utopia de liberdade da revolução francesa”) mas reproduz um comportamento informacional condicionado a um sistema “que não permite formas diversas ou heterogêneas de tempo, economias de desperdício ou insistência em um tempo livre”. Nas relações entre tempo, trabalho e desperdício, Reck afirma que nas novas mídias o tempo de trabalho não pode mais ser a forma social predominante de tempo. O principal paradoxo está justamente no fato de a maior individualidade (subjetividade) obtida com a redução do tempo e a predeterminação de escolha dos valores em meios digitais implica a maior dependência aos sistemas desenvolvidos pela sociedade global da informação. Seu artigo demonstra as possíveis relações entre trabalho e tempo, do taylorismo e fordismo à sociedade do espetáculo de Debórd, apresenta uma ilustradíssima comparação do tempo de trabalho da sociedade global da informação em oposição à “economia de bazar”(Clifford Geertz), e culmina com uma outra asserção paradoxal que muito nos deve fazer refletir: “a sociedade não pode mais servir como um todo porque não mais existe como um todo”.


Vicente Romano, em seu artigo “Educação cidadã e meios de comunicação” propõe uma Ecologia da Comunicação para lidar com as contradições que não são devidamente contempladas pelas mídias e que podem ser resumidas na contradição entre desenvolvimento tecnológico e progresso social. A situação paradoxal apresentada no artigo de Romano está no papel de educador e formador que a mídia assumiu ao tomar para si a maior parte do conhecimento que é transmitido à sociedade (particularmente aos jovens) mas que, no entanto, não se coaduna com a produção em massa e suas principais características: “simplificação, redução, uniformidade, generalização e comercialização”. Este artigo é um clamor de resistência ao mundo cada vez mais mediado que não nos permite acesso ao outro, ao diálogo, é um manifesto pela solidariedade e um alerta para a perda dos sentidos pelos quais percebemos o mundo com complexidade.


Dois outros textos desta edição preocuparam-se com a produção digital online. Doris C. Rush mostra o atual design do texto jornalístico na Internet, propondo abordá-lo não mais como texto, mas como um “evento áudio-visual extensivo”, conceito defendido em sua tese de doutoramento. Para ela, o jornalismo online não cumpre adequadamente a função de informar e entreter, provocando a insatisfação emocional do consumidor dessa mídia. Francisco Pimenta, que também propõe analisar os sites da Internet, recorre ao conceito semiótico de “degenerescência sígnica” para propor a mudança de hábitos de conduta que promovam a participação política direta (democracia participativa) por meio da utilização efetiva dos recursos multimídia e multicódigos dos meios online. Percebe-se que, por caminhos diferentes, esses autores também buscam a dimensão social e educativa da comunicação desejada por Vicente Romano.


Mais outros dois artigos que tratam das imagens técnicas contribuem com o diálogo possível presente no conjunto desta edição. Kati Caetano analisa os efeitos de sentido de realidade da imagem fotográfica tomando por ponto de partida dois paradoxos: o da imagem que é justamente ser imagem, e o da fotografia que, mesmo sendo imagem, é considerada pelo senso comum um meio de reprodução do real. Daí, direciona seu artigo para a discussão da imagem fotográfica em relação de “mestiçagem” com outras linguagens, outros suportes e outras mídias. Já Ana Cristina Teodoro da Silva trabalha em seu artigo com as imagens que define como “sintéticas”, particularmente as capas de revistas. Ao selecionar publicações separadas por 20 anos, Ana Cristina dá visibilidade para a construção da memória cultural, política e histórica e a ordenação do tempo como características da mídia.


Nos três últimos artigos, temos algumas colaborações de pesquisas em música e dramaturgia para os estudos de mídia e cultura: Em seu artigo, Tristan Castro-Pozo coloca o corpo-mídia no centro da análise da atuação do Teatro do Oprimido, entendido como prática pedagógica, objetivando trazer contribuição aos estudos de cultura e comunicação. O dramaturgo Pedro Carvalho Murad busca nos mitos arcaicos a estrutura da produção ficcional contemporânea. As várias possibilidades de aproximação como real entre os produtos artísticos ou midiáticos também é objeto de análise de Euro de Barros Couto Junior, que organiza uma série de relações entre as obras musicais e a derivações que se apropriam de sua criação original. Não poderíamos deixar de notar o paradoxo expresso nessa relação de imitação e condição de eterna derivação: segundo Couto Junior, o objeto artístico torna-se real após sua criação e, como tal, passa a fazer parte da realidade, o que significa que é suscetível à aplicação de um dos processos de imitação (ou função do real), gerando novo objeto do mundo real, transformando a realidade.


De paradoxo a paradoxo, com este pacote de artigos da 7ª. Edição, a revista Ghrebh- pretende continuar na sua proposta de promover os diálogos da comunicação. Boa leitura!



Luciano Guimarães
Outubro de 2005

Capa: Agradecimento ao Artista Plástico Carlos Salgado pela imagem do Quadro "Realidad y ficción" - Técnica mixta sobre lienzo - 55 X 77 cm - 2003


Plataforma Lattes Annablume Editora COS CNPq

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