GHREBH-, em indoeuropeu significava 'cavar, escavar', transformou-se, no germânico antigo, em /graban/ com o significado de 'escavar' ; transformou-se também em /graver/ (francês) com o sentido de lavrar em oco ou em relevo uma inscrição ou figura. As variantes GEREBH- ou GERBH- significam 'riscar, arranhar'. Dão origem ao anglo-saxônico /ceorfan/ 'recortar', ao alto alemão antigo, /kerban/ 'fazer uma incisão', ao norueguês / krabbe/ 'escavar'. Em grego deu /graphein/, como 'gravar, lavrar em baixo ou alto relevo uma inscrição ou figura, escrever'. Em latim /graphium/ significa 'estilo, ponteiro para escrever na cêra' e /graphiarium/ quer dizer 'estojo para guardar os estiletes com que se escrevia'. Dessa raiz comum vieram todas as palavras derivadas e compostas de gravar e grafia como biografia, gráfico, grafite, parágrafo, gravação, gravura. Também dessa mesma raiz provém o gre o /gramma/, com o significado de 'letra, linha' e seus compostos e derivados como programa, gramática, epigrama, anagrama, cardiograma e telegrama. (Fontes: Roberts/Pastor, Diccionario etimológico indoeuropeo de la lengua española; Kluge, Etymologisches Wörterbuch der deutschen Sprache; Faria, Dicionário escolar latino-português; Pokorny, Indogermanisches Wörterbuch)
brasil número 7 | são paulo | outubro de 2005   ISSN 1679-9100




Hipermídia, Ativismo e Novos Hábitos



por Francisco José Paollielo Pimenta
(Faculdade de Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora – paoliello@acessa.com)

Esta comunicação apresenta questões contidas em projeto de pós-doutorado intitulado Possibilidades da Hipermídia no Ativismo Global. O objetivo geral é o de pesquisar possíveis relações entre a utilização de suportes hipermídia, como instrumentos de estímulo à ações políticas diretas de âmbito global, e a formação de hábitos de conduta ligados à democracia participativa e a um internacionalismo renovado. No caso específico deste artigo, o intuito é o de estabelecer o campo teórico sobre o qual empreenderemos pesquisas de campo relacionadas à terceira hipótese que prevê que "o estímulo à participação política direta de âmbito global por meio de processos sígnicos hipermídia, quando explora suas capacidades multicódigos, gera hábitos de conduta que promovem a democracia participativa e o novo universalismo".

Partimos da consideração semiótica de que a mudança de hábitos mentais, que, por sua vez, afeta hábitos de conduta, está relacionada com a exposição das mentes interpretadoras a processos representativos marcados pelo fenômeno chamado por Peirce de "degenerescência sígnica". Esse conceito é assim explicado por Hanna Buczynska-Garewicz:

Uma representação é, em essência, uma operação intelectual e não pode ser nada além disso. Entretanto, ela não se separa de outras faculdades cognitivas. E o conceito peirceano de signo degenerado apresenta este fato de forma muito precisa. Devido a suas formas degeneradas, um signo é capaz de apelar aos nossos sentidos, de produzir nossas percepções, de determinar nossas ações, assim como, de gerar nossos pensamentos. Isto, é claro, não pode funcionar sem o envolvimento do nosso intelecto; o raciocínio é um momento indispensável de todo processo semiótico, pois é o próprio ato da mediar uma representação. Sem a razão, a semiose, ou seja, o processo de representação, é impossível. Assim, o raciocínio é a essência da semiose, entretanto, na maioria das vezes, a semiose intelectiva é misturada com outros atos da mente humana (Buczynska-Garewicz, 1971, p.14).


Daí, esta inevitável degenerescência implica na relevância de processos sígnicos empíricos, ou seja, aqueles nos quais signo e objeto são marcados pela existencialidade, ou, mais do que isso, até pelo compartilhamento das mesmas qualidades. Sempre que descreve as três instâncias do signo, Peirce reafirma tais fundamentos indexicais e icônicos dos símbolos, que, conforme vimos acima, são a base para processos semióticos mais elaborados, e, dentre eles, aqueles que conduzem aos últimos interpretantes possíveis, ou seja, ao interpretante lógico último, ligado à mudança de hábitos mentais. Tal interpretante é um hábito de tipo especial, segundo Peirce:


"Pode ser provado que o único efeito mental que pode ser produzido e que não é um signo, mas é de aplicação geral, é a mudança de hábito, entendendo por mudança de hábito a modificação das tendências de uma pessoa em relação à ação, resultante de experiências prévias ou esforços prévios de sua vontade ou de seus atos, ou de um complexo dos dois tipos de causas (CP 5.476).


Mais do que isto, a degenerescência estimula a mudança de hábitos mentais, seja quando o processo sígnico é marcado pela dinâmica das trocas existenciais da esfera dos objetos, ou seja, por uma degenerescência de primeiro grau, ou quando compartilha qualidades com estes mesmos objetos, ou seja, sofre uma degenerescência de segundo grau. Neste caso, estamos frente a um importante fator de geratividade, pois, segundo Peirce, a constante multiplicação de signos, a partir do estágio simbólico, ou seja, quando estão aptos a representar algo para uma ampla gama de mentes interpretadoras, deve-se particularmente aos ícones: "Símbolos crescem. Eles ganham existência a partir do desenvolvimento de outros signos, particularmente de ícones, ou de signos mistos que compartilham as qualidades dos ícones e dos símbolos." (Peirce, 1931 - 1958; 2.302).


Daí, analisaremos, a seguir, os diferentes códigos que compõem um site, entre eles aqueles voltados para o ativismo global, e, em que medida, eles podem passar por processos de degenerescência sígnica que os tornem aptos a estimular mudanças de hábitos mentais, e, daí, mudanças de hábitos de conduta voltados para a democracia participativa e o novo universalismo.



I. A Degenerescência do Verbal e as Mudanças de Hábitos

Apesar dos recentes desenvolvimentos das linguagens multicódigos, o verbal, tanto no seu aspecto de palavra escrita ou da fala em áudio, joga um papel fundamental na hipermídia. Isto se dá, em grande medida, por sua capacidade de estabelecer narrativas, ou seja, de transformar em signos sequências de eventos, de uma forma que permite uma compreensão clara e objetiva para um número expressivo de mentes interpretadoras. É um código classificado pela Teoria da Informação como sendo de alta definição, ou seja, é gerador de interpretações precisas com o uso de um mínimo de elementos. Sua força significativa vem, ainda, da utilização de dois modos importantes de articulação do pensamento, as associações por contiguidade, responsáveis pela formação dos sintagmas, e as associações por similaridade, decorrentes das multiplicidade de escolhas da esfera paradigmática.


Por outro lado, o código verbal que aparece na hipermídia, seja na escrita ou no áudio, depende de uma apreensão sígnica, por parte da mente interpretadora, convencional e arbitrária. Há muito que estes signos perderam as relações concretas que uma vez tiveram com seus objetos e, portanto, dependem de aprendizado demorado e de reiterações frequentes para que possam preservar sua eficácia comunicativa. Os significados que carregam consigo tendem a ficar, assim, cristalizados nos signos, eles mesmos, e nas estruturas gramaticais das quais dependem. Esta genuinidade sígnica cobra, portanto, o seu preço e um de seus resultados é a baixa variabilidade das relações signo/objeto, praticamente relegada às possíveis alternâncias paradigmáticas no interior da estrutura. O verbal não se constitui, assim, código que se caracterize pela plasticidade nas relações com o objeto ou na articulação de interpretantes.


Isto não quer dizer, contudo, que este código atue contra a formação de interpretantes lógicos últimos, ou seja, contra a mudança de hábitos. Ao contrário, como vimos acima, tais semioses genuínas são constituídas, primordialmente, de operações intelectivas sustentadas em signos convencionais, tais como o verbal escrito ou falado. Entretanto, vimos também que a geração de novas cadeias semióticas está relacionada aos processos de degenerescência sígnica e esta é uma possibilidade aberta para o verbal, seja em primeiro grau, quando ele e o objeto tem relações existenciais, ou em segundo grau, quando compartilham qualidades.


Observando, agora, mais de perto, o objeto de nosso estudo, ou seja, um site na rede Internet, de que modo poderia ocorrer uma degenerescência do verbal em primeiro grau, ou seja, em que situações poderíamos observar relações existenciais entre o signo e o objeto a ser representado ? Um forma disto ocorrer, mesmo que não seja de sua forma mais genuína, é por meio de relações de referencialidade. Neste sentido, quanto mais relações deste tipo os signos verbais puderem estabelecer, maior a riqueza de articulações com seus objetos. Na prática, isto significa que o verbal, seja escrito ou em áudio, articulado numa narrativa ou não, pode vir a fazer referência aos objetos que se deseja representar no site, nas suas mais diversas características. O recurso à narrativa também ancora estes signos no existente. Com isso, o signo amplia suas articulações com a esfera dos objetos, o que implica na captação de novos dados referentes àquela determinada representação, o que pode contribuir, pelo menos em tese, para mudanças de hábitos mentais e de conduta.


Existe, ainda, a perspectiva da degenerescência em segundo grau, ou seja, quando o signo compartilha qualidades com seu objeto. No caso do verbal, os três tipos possíveis de degenerescência de segundo grau, isto é, a imagem, o diagrama e a metáfora estão a seu alcance. Na hipermídia, como ocorre na imprensa, o trabalho com a tipologia é, antes de tudo, um trabalho com uma imagem, no qual a semelhança signo/objeto pode ser explorada. Além disso, palavras, parágrafos e textos inteiros podem ser diagramados, também no sentido de estabelecer convergências signo/objeto. E, finalmente, em relação às metáforas, a capacidade do verbal em criá-las é clara. Tudo isso pode colaborar para um apelo maior ao objeto, nas representações via hipermídia, e, daí, a relações mais ricas que levem a novos hábitos.


Desta forma, o verbal tem suas formas de degenerescência, o que o qualifica a formar representações complexas e articuladas com o âmbito empírico e, ainda assim, voltadas para a formação de interpretantes lógicos últimos e, daí, para a mudança de hábitos mentais e de conduta. Entretanto, conforme veremos a seguir, os códigos visual e sonoro (não em sua acepção de fala) apresentam condições mais adequadas para tais processos de degenerescência. De fato, as relações existenciais entre signo e objeto na esfera do verbal se restringem a um aspecto pouco genuíno destas relações, ou seja, a operações de referência, e o compartilhamento de qualidades, seja como imagem, diagrama ou metáfora, ainda guarda um traço intelectivo bastante marcante.



II. Uma Outra Degenerescência e a Mudança de Hábitos: O caso dos códigos visual e sonoro

Com o código visual, principalmente se articulado ao sonoro, os processos de degenerescência sígnica se aprofundam, quando comparados ao verbal. Isto não quer dizer que não possam participar de processos sígnicos genuínos, que conduzam, ao final, a mudanças de hábitos. É possível construir signos visuais, e até mesmo sonoros, com a generalidade necessária para que se transformem em marcas universalmente conhecidas e como tal decodificadas pelas mais diversas mentes interpretadoras, a exemplo do que ocorre com os signos verbais. O uso disseminado de signos visuais e sonoros, na atual cultura de massas, nos dá diversos exemplos de ocorrências como estas. Porém, a arbitrariedade e a convencionalidade não são o que caracteriza estes códigos, que, assim, por si sós, não estão aptos a produzirem processos sígnicos genuínos que conduzam a interpretantes lógicos últimos e, daí, a mudanças de hábitos. Será sempre em conjugação com o verbal, na linguagem multicódigos da hipermídia, que isto poderá vir a ocorrer.


Por outro lado, em meio a tais processos híbridos, a degenerescência em primeiro grau dos códigos visual e sonoro conduz tais signos a relações existenciais genuínas com seus objetos, e não apenas baseadas em referências, conforme apontamos para o verbal. Isto acontece por existirem relações existenciais fisicas e químicas entre signo e objeto nos meios técnicos construídos sobre as bases da ótica e do eletromagnetismo, entre eles os sistemas de captação e reprodução de sons e imagens, sejam analógicos, digitais ou híbridos.


Neste sentido, estes códigos atuam no cerne daquilo que Peirce chama de secundidade, ou seja, no âmbito daquilo que é existente. Tal fato tem consequências importantes para a pesquisa sobre a mudança de hábitos a partir das representações hipermídia pois implica em passarmos a considerar um aspecto bastante diferente daquele que vimos em jogo no caso do verbal. Naquele caso, tratava-se de atentarmos para a ação de um aspecto convencional do signo; agora, trata-se do impacto de um outro aspecto, o existencial.


Tais relações têm o mérito principal de incluir na hipermídia uma ancoragem existencial que estende a ação do signo a um contexto que, por si mesmo, se amplia mais e mais, pela ação das redes informáticas, o que atua, numa primeira instância, contra a cristalização de hábitos. A interveniência de múltiplos e variados fatores interpõe outros modos de associação que alteram o processo de formação dos diversos tipos de interpretantes, entre eles os interpretantes lógicos últimos, que se traduzem em mudanças de hábitos.


A conjugação de vídeo e som pode ser usada para representar sequências de eventos, tal como realiza a narrativa verbal, porém com uma base existencial que permite, por exemplo, que os poucos sujeitos gramaticais de uma narrativa verbal sejam multiplicados por um extenso número de subjetividades em interação com um ambiente igualmente muito mais complexo do que quaisquer verbos, adjetivos e advérbios possam descrever. Isto significa que signos aptos a representar de forma concreta e empírica o âmbito dos objetos existentes conduzirão mentes interpretadoras a uma percepção muito mais próxima daquela que ocorre na esfera das interações vividas, quando não há intermediação dos meios técnicos, gerando uma rede ampla de processos sígnicos aptos a causar mudanças de hábitos. Fotos e infográficos são outros recursos da hipermídia que promovem ancoragens existenciais, porém sem a capacidade de reproduzir sequências de eventos tais como descrevemos acima.


Além das alterações na ação do signo pelas representações de fundo empírico, os códigos visual e sonoro também apresentam uma forma extrema de degenerescência, ou seja, aquela na qual signo e objeto compartilham qualidades, tal como vimos no verbal. Ocorre, entretanto, que as degenerescências de segundo grau do verbal, que citamos acima, nas esferas da imagem, do diagrama e da metáfora, são consideravelmente ampliadas nestes outros códigos, uma vez que a contínua evolução dos meios técnicos, principalmente a partir da revolução digital, têm lhes garantido crescentes possibilidades de compartilhamento de qualidades com os objetos que visam representar. A evolução da fotografia em preto e branco para a atual TV digital via satélite faz com que a hipermídia possa contar, hoje, com signos que têm em comum com seus objetos sons, formas, cores e movimentos, tudo em tempo real e com possibilidades de interatividade com os usuários em rede.



III. Conclusão

A partir do que foi visto acima, podemos concluir que a hipótese de que "o estímulo à participação política direta de âmbito global por meio de processos sígnicos hipermídia, quando explora suas capacidades multicódigos, gera hábitos de conduta que promovem a democracia participativa e o novo universalismo" se assenta sobre uma base possível, ao menos no que diz respeito aos aspectos semióticos da proposição, ou seja, de que as capacidades multicódigos possam vir a promover mudanças de hábitos. Contudo, o estímulo à participação direta de âmbito global, por meio de tais processos sígnicos, não conduzirá, necessariamente, à democracia participativa. Daí ser necessário aprofundar esta fundamentação voltada para o teste desta terceira hipótese para avaliarmos como devem se dar os processos de edição dos sites de mobilização global, pois, acreditamos ser este o fator chave que poderá conduzir as mudanças de hábito no sentido desejado.



Francisco José Paollielo Pimenta - Professor Adjunto IV - Facom UFJF, Doutor em Comunicação e Semiótica (PUC-SP e TSOA-NYU), Mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), Editor Assistente de Política - JT/OESP, Editor Assistente de Internacional - AE/OESP.




Referências Bibliográficas

BUCZYNSKA-GAREWICZ, Hanna, (1971) "The Degenerate Sign" Stuttgart: Semiosis, 13


HARDT, Michael & Antonio Negri , (2001) Império RJ:: Record.

LUDD, Ned , (2002) Urgência nas Ruas: Black Block, Reclaim the Streets e os dias de ação global SP: Conrad


PEIRCE, Charles Sanders, (1931) Collected Papers. 8 vols Cambridge: Harvard University Press


PIMENTA, , Francisco J. P. , (2002) "Produções Multicódigos e o Conceito de Signo Genuíno em Peirce" Salvador: INTERCOM


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