Hipermídia,
Ativismo e Novos Hábitos
por
Francisco José Paollielo Pimenta
(Faculdade de Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora –
paoliello@acessa.com)
Esta
comunicação apresenta questões
contidas em projeto
de pós-doutorado intitulado Possibilidades da
Hipermídia
no Ativismo Global. O objetivo geral é o de pesquisar
possíveis relações entre a
utilização de suportes hipermídia,
como
instrumentos de estímulo à
ações
políticas diretas de âmbito global, e a
formação de hábitos de conduta ligados
à
democracia participativa e a um internacionalismo renovado. No caso
específico deste artigo, o intuito é o de
estabelecer o
campo teórico sobre o qual empreenderemos pesquisas de campo
relacionadas à terceira hipótese que
prevê que "o
estímulo à participação
política
direta de âmbito global por meio de processos
sígnicos
hipermídia, quando explora suas capacidades
multicódigos,
gera hábitos de conduta que promovem a democracia
participativa
e o novo universalismo".
Partimos da consideração
semiótica de que a mudança de hábitos
mentais,
que, por sua vez, afeta hábitos de conduta, está
relacionada com a exposição das mentes
interpretadoras a
processos representativos marcados pelo fenômeno chamado por
Peirce de "degenerescência sígnica". Esse conceito
é assim explicado por Hanna Buczynska-Garewicz:
Uma representação é, em
essência, uma
operação intelectual e não pode ser
nada
além disso. Entretanto, ela não se separa de
outras
faculdades cognitivas. E o conceito peirceano de signo degenerado
apresenta este fato de forma muito precisa. Devido a suas formas
degeneradas, um signo é capaz de apelar aos nossos sentidos,
de
produzir nossas percepções, de determinar nossas
ações, assim como, de gerar nossos pensamentos.
Isto,
é claro, não pode funcionar sem o envolvimento do
nosso
intelecto; o raciocínio é um momento
indispensável
de todo processo semiótico, pois é o
próprio ato
da mediar uma representação. Sem a
razão, a
semiose, ou seja, o processo de representação,
é
impossível. Assim, o raciocínio é a
essência
da semiose, entretanto, na maioria das vezes, a semiose intelectiva
é misturada com outros atos da mente humana
(Buczynska-Garewicz,
1971, p.14).
Daí, esta inevitável degenerescência
implica na
relevância de processos sígnicos
empíricos, ou
seja, aqueles nos quais signo e objeto são marcados pela
existencialidade, ou, mais do que isso, até pelo
compartilhamento das mesmas qualidades. Sempre que descreve as
três instâncias do signo, Peirce reafirma tais
fundamentos
indexicais e icônicos dos símbolos, que, conforme
vimos
acima, são a base para processos semióticos mais
elaborados, e, dentre eles, aqueles que conduzem aos últimos
interpretantes possíveis, ou seja, ao interpretante
lógico último, ligado à
mudança de
hábitos mentais. Tal interpretante é um
hábito de
tipo especial, segundo Peirce:
"Pode ser provado que o único efeito mental que pode ser
produzido e que não é um signo, mas é
de
aplicação geral, é a
mudança de
hábito, entendendo por mudança de
hábito a
modificação das tendências de uma
pessoa em
relação à ação,
resultante de
experiências prévias ou esforços
prévios de
sua vontade ou de seus atos, ou de um complexo dos dois tipos de causas
(CP 5.476).
Mais do que isto, a degenerescência estimula a
mudança de
hábitos mentais, seja quando o processo sígnico
é
marcado pela dinâmica das trocas existenciais da esfera dos
objetos, ou seja, por uma degenerescência de primeiro grau,
ou
quando compartilha qualidades com estes mesmos objetos, ou seja, sofre
uma degenerescência de segundo grau. Neste caso, estamos
frente a
um importante fator de geratividade, pois, segundo Peirce, a constante
multiplicação de signos, a partir do
estágio
simbólico, ou seja, quando estão aptos a
representar algo
para uma ampla gama de mentes interpretadoras, deve-se particularmente
aos ícones: "Símbolos crescem. Eles ganham
existência a partir do desenvolvimento de outros signos,
particularmente de ícones, ou de signos mistos que
compartilham
as qualidades dos ícones e dos símbolos."
(Peirce, 1931 -
1958; 2.302).
Daí, analisaremos, a seguir, os diferentes
códigos que
compõem um site, entre eles aqueles voltados para o ativismo
global, e, em que medida, eles podem passar por processos de
degenerescência sígnica que os tornem aptos a
estimular
mudanças de hábitos mentais, e, daí,
mudanças de hábitos de conduta voltados para a
democracia
participativa e o novo universalismo.
I. A
Degenerescência do Verbal e as Mudanças de
Hábitos
Apesar dos recentes desenvolvimentos das linguagens
multicódigos, o verbal, tanto no seu aspecto de palavra
escrita
ou da fala em áudio, joga um papel fundamental na
hipermídia. Isto se dá, em grande medida, por sua
capacidade de estabelecer narrativas, ou seja, de transformar em signos
sequências de eventos, de uma forma que permite uma
compreensão clara e objetiva para um número
expressivo de
mentes interpretadoras. É um código classificado
pela
Teoria da Informação como sendo de alta
definição, ou seja, é gerador de
interpretações precisas com o uso de um
mínimo de
elementos. Sua força significativa vem, ainda, da
utilização de dois modos importantes de
articulação do pensamento, as
associações
por contiguidade, responsáveis pela
formação dos
sintagmas, e as associações por similaridade,
decorrentes
das multiplicidade de escolhas da esfera paradigmática.
Por outro lado, o código verbal que aparece na
hipermídia, seja na escrita ou no áudio, depende
de uma
apreensão sígnica, por parte da mente
interpretadora,
convencional e arbitrária. Há muito que estes
signos
perderam as relações concretas que uma vez
tiveram com
seus objetos e, portanto, dependem de aprendizado demorado e de
reiterações frequentes para que possam preservar
sua
eficácia comunicativa. Os significados que carregam consigo
tendem a ficar, assim, cristalizados nos signos, eles mesmos, e nas
estruturas gramaticais das quais dependem. Esta genuinidade
sígnica cobra, portanto, o seu preço e um de seus
resultados é a baixa variabilidade das
relações
signo/objeto, praticamente relegada às possíveis
alternâncias paradigmáticas no interior da
estrutura. O
verbal não se constitui, assim, código que se
caracterize
pela plasticidade nas relações com o objeto ou na
articulação de interpretantes.
Isto não quer dizer, contudo, que este código
atue contra
a formação de interpretantes lógicos
últimos, ou seja, contra a mudança de
hábitos. Ao
contrário, como vimos acima, tais semioses
genuínas
são constituídas, primordialmente, de
operações intelectivas sustentadas em signos
convencionais, tais como o verbal escrito ou falado. Entretanto, vimos
também que a geração de novas cadeias
semióticas está relacionada aos processos de
degenerescência sígnica e esta é uma
possibilidade
aberta para o verbal, seja em primeiro grau, quando ele e o objeto tem
relações existenciais, ou em segundo grau, quando
compartilham qualidades.
Observando, agora, mais de perto, o objeto de nosso estudo, ou seja, um
site na rede Internet, de que modo poderia ocorrer uma
degenerescência do verbal em primeiro grau, ou seja, em que
situações poderíamos observar
relações existenciais entre o signo e o objeto a
ser
representado ? Um forma disto ocorrer, mesmo que não seja de
sua
forma mais genuína, é por meio de
relações
de referencialidade. Neste sentido, quanto mais
relações
deste tipo os signos verbais puderem estabelecer, maior a riqueza de
articulações com seus objetos. Na
prática, isto
significa que o verbal, seja escrito ou em áudio, articulado
numa narrativa ou não, pode vir a fazer referência
aos
objetos que se deseja representar no site, nas suas mais diversas
características. O recurso à narrativa
também
ancora estes signos no existente. Com isso, o signo amplia suas
articulações com a esfera dos objetos, o que
implica na
captação de novos dados referentes
àquela
determinada representação, o que pode contribuir,
pelo
menos em tese, para mudanças de hábitos mentais e
de
conduta.
Existe, ainda, a perspectiva da degenerescência em segundo
grau,
ou seja, quando o signo compartilha qualidades com seu objeto. No caso
do verbal, os três tipos possíveis de
degenerescência de segundo grau, isto é, a imagem,
o
diagrama e a metáfora estão a seu alcance. Na
hipermídia, como ocorre na imprensa, o trabalho com a
tipologia
é, antes de tudo, um trabalho com uma imagem, no qual a
semelhança signo/objeto pode ser explorada. Além
disso,
palavras, parágrafos e textos inteiros podem ser
diagramados,
também no sentido de estabelecer convergências
signo/objeto. E, finalmente, em relação
às
metáforas, a capacidade do verbal em criá-las
é
clara. Tudo isso pode colaborar para um apelo maior ao objeto, nas
representações via hipermídia, e,
daí, a
relações mais ricas que levem a novos
hábitos.
Desta forma, o verbal tem suas formas de degenerescência, o
que o
qualifica a formar representações complexas e
articuladas
com o âmbito empírico e, ainda assim, voltadas
para a
formação de interpretantes lógicos
últimos
e, daí, para a mudança de hábitos
mentais e de
conduta. Entretanto, conforme veremos a seguir, os códigos
visual e sonoro (não em sua acepção de
fala)
apresentam condições mais adequadas para tais
processos
de degenerescência. De fato, as
relações
existenciais entre signo e objeto na esfera do verbal se restringem a
um aspecto pouco genuíno destas
relações, ou seja,
a operações de referência, e o
compartilhamento de
qualidades, seja como imagem, diagrama ou metáfora, ainda
guarda
um traço intelectivo bastante marcante.
II.
Uma Outra Degenerescência e a Mudança de
Hábitos: O caso dos códigos visual e sonoro
Com o código visual, principalmente se articulado ao sonoro,
os
processos de degenerescência sígnica se
aprofundam, quando
comparados ao verbal. Isto não quer dizer que não
possam
participar de processos sígnicos genuínos, que
conduzam,
ao final, a mudanças de hábitos. É
possível
construir signos visuais, e até mesmo sonoros, com a
generalidade necessária para que se transformem em marcas
universalmente conhecidas e como tal decodificadas pelas mais diversas
mentes interpretadoras, a exemplo do que ocorre com os signos verbais.
O uso disseminado de signos visuais e sonoros, na atual cultura de
massas, nos dá diversos exemplos de ocorrências
como
estas. Porém, a arbitrariedade e a convencionalidade
não
são o que caracteriza estes códigos, que, assim,
por si
sós, não estão aptos a produzirem
processos
sígnicos genuínos que conduzam a interpretantes
lógicos últimos e, daí, a
mudanças de
hábitos. Será sempre em
conjugação com o
verbal, na linguagem multicódigos da hipermídia,
que isto
poderá vir a ocorrer.
Por outro lado, em meio a tais processos híbridos, a
degenerescência em primeiro grau dos códigos
visual e
sonoro conduz tais signos a relações existenciais
genuínas com seus objetos, e não apenas baseadas
em
referências, conforme apontamos para o verbal. Isto acontece
por
existirem relações existenciais fisicas e
químicas
entre signo e objeto nos meios técnicos
construídos sobre
as bases da ótica e do eletromagnetismo, entre eles os
sistemas
de captação e reprodução de
sons e imagens,
sejam analógicos, digitais ou híbridos.
Neste sentido, estes códigos atuam no cerne daquilo que
Peirce
chama de secundidade, ou seja, no âmbito daquilo que
é
existente. Tal fato tem consequências importantes para a
pesquisa
sobre a mudança de hábitos a partir das
representações hipermídia pois implica
em
passarmos a considerar um aspecto bastante diferente daquele que vimos
em jogo no caso do verbal. Naquele caso, tratava-se de atentarmos para
a ação de um aspecto convencional do signo;
agora,
trata-se do impacto de um outro aspecto, o existencial.
Tais relações têm o mérito
principal de
incluir na hipermídia uma ancoragem existencial que estende
a
ação do signo a um contexto que, por si mesmo, se
amplia
mais e mais, pela ação das redes
informáticas, o
que atua, numa primeira instância, contra a
cristalização de hábitos. A
interveniência
de múltiplos e variados fatores interpõe outros
modos de
associação que alteram o processo de
formação dos diversos tipos de interpretantes,
entre eles
os interpretantes lógicos últimos, que se
traduzem em
mudanças de hábitos.
A conjugação de vídeo e som pode ser
usada para
representar sequências de eventos, tal como realiza a
narrativa
verbal, porém com uma base existencial que permite, por
exemplo,
que os poucos sujeitos gramaticais de uma narrativa verbal sejam
multiplicados por um extenso número de subjetividades em
interação com um ambiente igualmente muito mais
complexo
do que quaisquer verbos, adjetivos e advérbios possam
descrever.
Isto significa que signos aptos a representar de forma concreta e
empírica o âmbito dos objetos existentes
conduzirão
mentes interpretadoras a uma percepção muito mais
próxima daquela que ocorre na esfera das
interações vividas, quando não
há
intermediação dos meios técnicos,
gerando uma rede
ampla de processos sígnicos aptos a causar
mudanças de
hábitos. Fotos e infográficos são
outros recursos
da hipermídia que promovem ancoragens existenciais,
porém
sem a capacidade de reproduzir sequências de eventos tais
como
descrevemos acima.
Além das alterações na
ação do signo
pelas representações de fundo
empírico, os
códigos visual e sonoro também apresentam uma
forma
extrema de degenerescência, ou seja, aquela na qual signo e
objeto compartilham qualidades, tal como vimos no verbal. Ocorre,
entretanto, que as degenerescências de segundo grau do
verbal,
que citamos acima, nas esferas da imagem, do diagrama e da
metáfora, são consideravelmente ampliadas nestes
outros
códigos, uma vez que a contínua
evolução
dos meios técnicos, principalmente a partir da
revolução digital, têm lhes garantido
crescentes
possibilidades de compartilhamento de qualidades com os objetos que
visam representar. A evolução da fotografia em
preto e
branco para a atual TV digital via satélite faz com que a
hipermídia possa contar, hoje, com signos que têm
em comum
com seus objetos sons, formas, cores e movimentos, tudo em tempo real e
com possibilidades de interatividade com os usuários em
rede.
III.
Conclusão
A partir do que foi visto acima, podemos concluir que a
hipótese
de que "o estímulo à
participação
política direta de âmbito global por meio de
processos
sígnicos hipermídia, quando explora suas
capacidades
multicódigos, gera hábitos de conduta que
promovem a
democracia participativa e o novo universalismo" se assenta sobre uma
base possível, ao menos no que diz respeito aos aspectos
semióticos da proposição, ou seja, de
que as
capacidades multicódigos possam vir a promover
mudanças
de hábitos. Contudo, o estímulo à
participação direta de âmbito global,
por meio de
tais processos sígnicos, não
conduzirá,
necessariamente, à democracia participativa. Daí
ser
necessário aprofundar esta
fundamentação voltada
para o teste desta terceira hipótese para avaliarmos como
devem
se dar os processos de edição dos sites de
mobilização global, pois, acreditamos ser este o
fator
chave que poderá conduzir as mudanças de
hábito no
sentido desejado.
Francisco
José Paollielo Pimenta - Professor
Adjunto IV - Facom UFJF, Doutor em Comunicação e
Semiótica (PUC-SP e TSOA-NYU), Mestre em
Comunicação e Semiótica (PUC-SP),
Editor
Assistente de Política - JT/OESP, Editor Assistente de
Internacional - AE/OESP.
Referências
Bibliográficas
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(1971) "The Degenerate Sign" Stuttgart: Semiosis, 13
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& Antonio Negri , (2001) Império RJ:: Record.
LUDD, Ned , (2002)
Urgência nas Ruas: Black Block, Reclaim the Streets
e os dias de ação global SP: Conrad
PEIRCE, Charles
Sanders, (1931) Collected Papers. 8 vols Cambridge:
Harvard University Press
PIMENTA, ,
Francisco J. P. , (2002) "Produções
Multicódigos e o Conceito
de Signo Genuíno em Peirce" Salvador: INTERCOM
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