Trabalho, Tempo e Desperdício:
Perspectivas da Crítica à Economia Política da Nova Mídia
por
Hans-Ulrich
Reck
(Kunsthochschule für Medien - Colônia –
Alemanha – HUReck@aol.com)
I
O aspecto mais cruel do trabalho é que
ele, na verdade, mais cria do que retifica uma necessidade. Esta
experiência não é meramente
histórica, mas simbólica da
elevação metafísica do trabalho. A
promessa de paraíso que ele oferece freqüentemente
cai na ameaça de ser retirada por aqueles cujo direito a ele
fora perdido, por qualquer motivo.
Ao mesmo tempo, do trabalho depende a
ameaça à existência. Ele define,
recompensa, educa, orienta, pune. Hoje em dia, ser privado de trabalho
é sério, simplesmente pelo fato reconhecidamente
assustador de que ele é somente a – até
agora inalterada – ligação entre
trabalho e salário que determina o
realização dos meios para necessário
atendimento de necessidades. Esta relação
obrigatória não é uma
invenção capitalista.
Eu desconfio que seja mais uma prova do bicho
papão da história natural. Entretanto, o modelo
organizacional capitalista para esta necessidade, disfarçado
de história natural, é crescentemente encoberto
pela cultura e justificado esteticamente, especialmente por meios de
novas tecnologias de comunicação que se
propõem não-materiais – uma figura de
mistificação, à qual surpreendente
muitos estão prontos para sucumbir.
II
Imaterialidade e o mito da inteligência
coletiva, tão freqüentemente alardeados em
ideologias de mídia como o efeito inevitável da
tecnologia, basicamente significam submeter ou adaptar arquiteturas e
hierarquias de comandos e processos ao sistema telematicamente
determinado. O estabelecimento do sistema de trabalho, dinheiro, lucro
e reconhecimento vai se direcionar da Internet e da World Wide Web para
espaços individuais. Em risco está a boa vontade,
cumprida pela sociedade, de aprender a formatação
das novas tecnologias de comunicação em
relação à sua própria vida,
possuída e mostrada como uma
pré-condição para todas as
qualificações concebíveis,
até certo ponto, por própria natureza. De forma
correspondente, na economia de políticas e redes de
informação, tudo o que acontece deixa de ter
significado sem referência a cultura e
comunicação, e não é capaz
de causar efeito em nada. O avanço individual substitui a
salvaguarda social do trabalho e condições
até agora padrões de contratos.
A declaração de um
avanço pessoal como uma realização
cultural, que dá direito à admissão no
mundo de trabalho no nível dos últimos
padrões tecnológicos, depende da
aquisição individual não paga de
pré-condições de
qualificação. Os serviços anteriores
são substituídos pela linguagem de comandos. Esta
linguagem ocupa uma posição proeminente na Teoria
da Mídia, na qual a construção final
da mídia de meios – que significa, de forma
bizarra, muito mais o computador do que a linguagem – parece
ser provida do modelo construtivo hierárquico de comandos
militares. Tem também seu lugar nas
decorações utópicas
simbólicas de propaganda padrão de
mídia, por exemplo, ao incitar que “todos devem
estar conectados”.
Qualquer um não envolvido continua
marginalizado, estigmatizado por falhar em apoiar o progresso. A
inteligência coletiva freqüentemente invocada
(Pierre Lévy) – que propaga uma universalidade sem
totalidade e que vê realidades virtuais do
cyberespaço e fluxo livre de
informações como a
personificação da utopia de liberdade da
revolução francesa – é
baseada em postulados obrigatórios. Todos devem estar
ligados a alguém. Ele(a) devem praticar e o atestam, na
realidade e na manutenção de
atualizações.
Subjetividade torna-se uma
condição predestinada de possibilidades sociais.,
porque a negação de hierarquias e horizontalidade
mistificada de utopias de comunicação
é impensável sem a contínua demanda de
que todo membro da rede global de informação
continuamente reprojeta, define e simultaneamente se supera na
competição supostamente livre e divertida com
outros.
O fascínio por esse tipo de
superação une visões de direita e
esquerda e versões de cultura global de rede. Tanto a
cooperação quanto a inteligência
coletivas reproduzem as condições de uma resposta
de um sistema, que não permite formas diversas ou
heterogêneas de tempo, economias de desperdício ou
insistência em um tempo livre, mas inutilmente gasto e
inerente ao sistema.
III
A eficiência operacional normal que
deveria ser continuada como um negócio na Internet,
normalmente adquire informação pedindo a um grupo
representativo de pessoas para responder a uma breve
compilação de questões e interesses na
forma de uma lista. A condição é que
as opções apresentadas sejam familiares e que um
equilíbrio entre as opções procuradas
e oferecidas possa ser aproximadamente formulado. É sugerido
que a sociedade global de informação
será qualitativamente dependente da inclusão de
conceitos mais complexos. Isto pode ser ilustrado por um caso
completamente diferente, informativo justamente por sua estranheza: o
bazar arcaico. Isto representa um modelo específico de uma
cultura de informação que funciona de maneiras
completamente distintas da eficiência operacional da
fábrica e do escritório. Também
funciona para tarefas que ainda não foram dominadas na
economia global.
O bazar revela formas híbridas de
ritmos temporais e expectativas de uso, uma montagem de interesses
heterogêneos e auto-projetos. Diversos ciclos coexistem,
entrelaçam-se, penetram-se e quebram-se novamente, por
exemplo, estável e instável, constantes e
singulares reversíveis, ofertas e demandas permanentemente
localizadas e seletivamente deslocadas. Dados ou conhecimento pouco
claros são as condições e
estipulações. O único conhecimento
disponível é a da principal incapacidade de saber
de estipulações concretas. A qualidade do
produto, as relações de valor e economia de
preços, a diversidade de ofertas do dia com produtos
similares e os limites de estoque de produtos não-similares:
todos esses fatores mudam em questão de dias, e
freqüentemente, horas.
As possibilidades de mercado estão
ligadas ao constante posicionamento de todos os envolvidos no
negócio e nas negociações. Eles
estão localizados em um sistema de turbulência
comparável ao dos mercados de ação de
hoje. O bazar funciona de forma a reduzir, na verdade, o
não-conhecimento para uma pessoa, aumenta-o ponto a ponto
para outra e o torna permanentemente defensável para ainda
outra. A informação não é
trocada, mas uma base que permitirá a
negociação é procurada. É
na busca à formação que o etnologista
Clifford Geertz identifica a experiência central do bazar.
"Cada aspecto da economia de bazar reflete o fato de que o problema
principal em relação a seus participantes (ou
seja, 'bazaaris') não é balancear
opções, e sim encontrar quais elas
são". (Geertz: 80) Comércio e
negociação são multi-dimensionais e
intensivos. O caso individual é mais importante que a regra
geral, que falha em tornar-se concreta. O bazar não funciona
por meio de uma lista resumida de opções
apresentada por um grande número de pessoas, e sim o
contrário, com um grande número de
questões nevrálgicas apresentadas apenas a um
punhado de pessoas.
Conceitualmente, esta forma de
avaliação subjetiva de modelos abstratos ainda
não foi usada para realidade virtual porque representa uma
entidade de um número de tamanhos singulares e
heterogêneos em controle, que não podem ser
facilmente padronizados ou programados. Acredito que
deveríamos considerar a demanda pela subjetividade,
refletida por estes modelos, como uma moeda corrente na
habituação cultural ao digitalizado em detrimento
do tempo. A vivacidade do bazar – gesto, linguagem,
teatralidade, apresentação, enfim: a cultura da
performance – é análoga e oposta aos
valores propagados da sociedade da Internet. O que está por
detrás disto ainda está por ser visto.
IV
A subjetividade encenada e a criatividade imposta
estão escondidas nas raízes das demandas por uma
estetização de compulsões de
subsistência e pelo ‘livre subjugo’ na
nova hierarquia de dominância da mídia. Uma
mudança decisiva e decidida está a caminho. A
auto-disciplina simbólica está substituindo a
máquina industrial. A criatividade está se
tornando um sinônimo para heterônimo: 'trabalho'
como 'idolatria', como sempre. As tentativas de hoje de parar o
trabalho, ele mesmo a própria crise que parece ensejar,
não são mais expressas em respeito à
religião, mas em respeito à imersão em
uma tecnologia aparentemente permeada de fervor religioso.
Auto-estilização oferece promessas de liberdade,
até o ponto em que o ímpeto pela individualidade
se afirma de forma esbanjadora, assim como sua forma
simbólica, como uma máquina social gigante. Isto
explica porque imagens, projeções e logotipos
substituíram a máquina iconoclástica
da indústria como o motor do desenvolvimento cultural. Por
outro lado, de acordo com a organização de
sistemas de trabalho de Henry Ford, a fábrica é a
sociedade e vice-versa.
A desejada síntese entre o sistema
micrológico da separação cada vez mais
rápida e perfeita de processos de trabalho na linha de
produção e o sistema macroscópico de
racionalidade do consumidor, de acordo com salários,
produziu duas conseqüências históricas a
partir do momento em que ambos se mostraram disfuncionais para a
sociedade: primeiramente, o cerceamento do poder individual de tomada
de decisão autônoma e segundo, o aumento da
subjetividade determinada pelo poder de compra. Estas duas
estratégias de auto-afirmação
gratificadas no capitalismo desenvolvido – a carreira
profissional e a biografia narrável – eram ambas
preenchidas e ameaçadas por muitos fatores do modelo de
Henry Ford.
O reconhecimento do trabalho era crescentemente
vinculado à encenação do poder de
compra, auto-apresentação simbólica e
prestígio. A representação exterior
reforçou a pressão de subsistência
– separada do trabalho executado segundo o ditame da resposta
rigorosa de racionalidade operacional otimizada. Este modelo se baseava
no ideal de subjetividade, familiar do 'Bildungsroman' de classe
média. O modelo Ford deu inevitável
vazão à mesma crise que lutou para resolver. Ele
padronizou requisitos de qualificação
profissional com respeito a pessoas que deveriam estar agindo
simultaneamente como consumidores instruídos e culturalmente
confiantes, em uma esfera autônoma separada do trabalho. Os
requisitos de negociações internas de empresas
foram mantidos o mais breve e elementar possível, receberam
formas e modularizações estereotipadas,enquanto
as qualificações para o uso de bens eram baseadas
em instrução complexa e habilidade de
orientação.
O modelo de Henry Ford falhou fundamentalmente
porque quebrou um princípio básico de Karl Marx e
do capitalismo: a saber, a alienação do trabalho,
ou trabalho em geral, apenas pode ser produtiva se, mesmo que
fragmentada, pode ser experimentada como o desenvolvimento da
subjetividade. O modelo de Henry Ford fundamentalmente tira o
crédito do trabalho, em todas as frentes: para o capital, o
trabalho é meramente um seguro individual de
subsistência de consumo. Para o próprio
trabalhador, o trabalho é exatamente o mesmo, apenas
dissociado. Neste sentido, a mecanização do
trabalho perde aquilo que o faz social – não menos
o orgulho que as pessoas tiveram dos frutos de seu próprio
(ainda que em um nível rudimentar) trabalho. Isto
não é mais possível nos mundos de
Taylor ou de Ford. O corpo bem treinado, fragmentado, disciplinado,
instrumentalizado, aprimorado e usado está localizado em
nichos de descanso, um símbolo de ínterim entre
processos ainda não mecanizados.
V
Diversas estratégias sociais tentam
agora responder a essa crise. A sociedade de espetáculo
tornou-se o modelo mais bem sucedido, mas continua inútil,
no fundo, porque mais intensifica do que supera a crise. Com sua
permanente separação e ruptura de energias em
demonstrações ainda mais delirantes de bens, luxo
e consumismo, a sociedade de espetáculo aprendeu sua
lição macro-econômica a partir da falha
de Ford.
Neste sentido, o trabalho desaparece gradualmente
do arsenal de provedores de segurança vitalícios,
com o mercado de ações e
especulação crescentemente tomando seu lugar. A
própria subsistência torna-se o capital que deve
ser multiplicado e com isto posto em risco, por razões de
crescente pobreza. O investimento de recursos de vida torna-se ainda
mais descuidado. Apenas aqueles que podem provar sua força
ainda pertencem à sociedade.
As apostas continuam subindo. O que exatamente
significam o esforço intenso do dia eficiente de trabalho e
o conseqüente valor crescente da existência do
consumidor é difícil de entender completamente
atualmente, apesar dos fundamentos teóricos dos recomendados
jogos de risco já haverem sido descritos vividamente,
precisamente e cinicamente por Guy Debord em "The Society of Spectacle"
(escrito em 1967). A imaginação tem sido, desde
então, desigual ao fluxo delirante e incessante de
demonstrações ainda mais ambiciosas na sociedade
do espetáculo.
De forma semelhante, desde a lei que determina
que dinheiro não pode mais ser transformado em ouro, e mais
tarde, a introdução de câmbios
flutuantes, por muitas vezes o produto interno bruto, ou o produto
nacional bruto em geral, é movimentado diariamente por
especulações do mercado de
ações. O capital delirante, a
convulsão do tempo de vida e os excessos da sociedade de
espetáculo marcam os limites de um novo
território, inteiramente remapeado desde os dias de Marx e
Smith, Taylor e Ford.
Para todos aqueles agora supérfluos aos
processos da sociedade, tudo o que resta é sofrer e
agüentar a pressão de uma autonomia suportada pelo
sistema, para melhor ou para pior. Enquanto eles estão
ocupados trabalhando em sua subjetividade e auto-crítica,
direitos tradicionais e adquiridos de subsistência com
respeito ao público não são mais
reconhecidos. Não sendo mais um fator, parecem ter se
tornado redundantes.
VI
O Comprometimento com a companhia, a lealdade e os
outros recursos de um processo de produção
fundamentados em trabalho foram dramaticamente desvalorizados na
sociedade de espetáculo e na economia pós-Ford de
continuidade e processos de aprendizado. Isto é provado mais
claramente pela tendência de 'job-hopping' (saltar de um
emprego a outro) dos últimos anos, a mudança
rápida de emprego, que não tem mais o
mérito do título ‘trabalho’
porque os respectivos requisitos sempre foram preventivamente delegados
a indivíduos profissionalizados por constante
auto-educação. O computador também
representa o fato de que profissões não
são mais possíveis, tampouco desejadas.
A demanda por responsabilidade mais pessoal,
mesmo nos mais baixos escalões do dependente mundo do
trabalho, ilustra até que ponto a pressão de
constante auto-apresentação comunicativa cresceu,
e também mostra que este não é um
fenômeno isolado, mas uma compulsão inerente ao
sistema. Na mesma medida em que o macro-indicador trabalha em
relação a uma libertação de
deveres sociais, trabalho 'on the front' é determinado pelo
dever da auto-organização de acordo com regras
empresariais e a premissa de retorno de capital. O que parece um
progressivo colapso de hierarquias empresariais em favor de redes
auto-organizantes em trabalho de equipe organizado significa
basicamente uma compulsão continuamente demonstrada para se
concretizar realizações.
A confusão da dinâmica,
tomada de risco e criatividade disfarçam o fato de que o
desejado personagem social novo e inovador não
está de acordo com um projeto social, mas com a injusta
demanda por flexibilidade determinada pelo sistema, que difere
radicalmente dos conceitos de Taylor e Ford que, em contraste, parecem
social-românticos. A referência a
inovação, subjetividade, responsabilidade pessoal
e dinâmica também disfarça o fato de
que a mudança da segurança da carreira
profissional e a compensação pela carga com uma
pequena mas autônoma segurança para a equipe
auto-organizada com dados valores de eficiência mas sem dadas
formas educacionais levou à
desorganização de categorias de tempo, com uma
variedade de repercussões.
De forma crescente, todo projeto e equipe
começam dissimulando trabalho preliminar e
tradição. Superficialmente, 'job-hopping'
é uma forma interessante de nomadismo, análoga ao
leve surfe nas ondas de informação digitalizada
na World Wide Web. Na verdade, todos os ritmos temporais ligados a
processos de aprendizado cumulativos foram unidos em um momento
impulsivo de auto-consciência seletiva e
auto-descrição instantânea..
É exatamente a liberdade de
organização que deve garantir o cumprimento de
metas estipuladas – e, deve-se acrescentar, nada mais.
Não apenas a vida tornou-se economicamente
supérflua porque não pode ser financiada, mas
também o próprio trabalho que a deveria ter
financiado. Políticos de todas as cores repetem a
necessidade de uma redução de índices
de emprego de forma absurdamente freqüente, apenas para
colocar o trabalho como o meio mais importante de se desenvolver a
subjetividade de volta ao centro da existência. Isto ilustra
o medo terrível, mobilizado principalmente como uma forma de
repelir a idéia de que organização
social significativa não pode mais depender de trabalho,
produção e melhorias, e sim em
abstinência do trabalho, não se fazer nada,
desconexão e redução.
O capitalismo corrente não deseja mais
sustentar sua organização de trabalho de qualquer
maneira, mas quer depender dos lucros dos acionistas. Ainda que isto
seja conhecido, não tem conseqüências em
termos filosóficos de trabalho. A
suposição óbvia é de que
política é um pouco mais do que a busca pela
dissimulação global desta opinião. A
verdadeira provocação não é
tanto a dominância do desemprego, mas que o trabalho por si
só possibilita a aquisição de dinheiro
suficiente, ainda que seja precisamente isto o que o trabalho na
verdade não seja mais apto a fazer. A razão para
isto vai muito além do capitalismo ou da ética do
trabalho protestante. A conclusão inevitável
é de que o trabalho deve perder seu significado,
não apenas para a economia, mas também em
pensamento e imaginação.
Como o trabalho é baseado na
sociedade, a conclusão óbvia é de que
trabalho e salário não devem mais ser o meio
básico de socialização.
Também significa (e isto não tem sido totalmente
apreciado até agora) que não pode haver uma
sociedade suficientemente ampla para acomodar a todos como um
componente útil do todo. Em suma, a sociedade não
pode mais servir como um todo porque não mais existe como um
todo. A conseqüência disto é baseada em
uma simples teoria: tempo de trabalho não pode mais ser a
forma social predominante de tempo.
O fato do capitalismo não ter
encontrado forma para isto, mas distorceu a questão
até a destruição é o que
faz o capitalismo tão infeliz e prova sua falta de
imaginação e sua violenta
interpretação de tempo, reduzido ao tempo de
produção de bens e valores serializados. A
destruição de valores na guerra assumiu hoje os
traços de uma guerra civil insidiosa e inicialmente fria na
Europa Oriental. Qualquer crítica de economia
contemporânea deve ter em mente está
destruição inevitável, apesar do
efeito distorcido destes sintomas.Isto não é
destruição no sentido tradicional: é a
forma anterior de produtividade que está em
questão.
VII
A crítica básica de teorias
econômicas anteriores dos valores e metafísicas de
um trabalho exclusivamente de formação de valores
origina-se com Georges Bataille, que o seguiu por um número
de caminhos estranhos baseados em suas teorias de religião e
cosmologia. O modelo de Bataille de economia fundamenta-se em uma
dialética irremediável de necessidade e
desperdício, no qual o desperdício enquanto
limite do mundo da produtividade é planejado ou no sentido
do seleto direito de descarte de poucos ou um exemplo
inconcebível de destruição negativa.
Em contraste, Bataille faz a hipótese elementar de que o
trabalho foi amarrado com uma dupla necessidade paradoxal muito antes
do capitalismo: a perda de energias desencadeada por
superávit e a ausência de uma
destruição produtiva de valores nos quais o
superávit não é mais representado.
Ambas as formas de necessidade são
manifestadas como trabalho. De acordo com Bataille, o trabalho deve
ainda assim ser descontínuo. O que o inevitável
superávit de vitalidade não pode suportar
é o que proporciona a constância do trabalho.
Escandalosamente, Bataille sustenta que os males do mundo
estão fundamentados em sua riquezas. São
especificamente as riquezas de um tipo particular que afirmam uma
pessoa cosmologicamente como um desperdício de energias,
também expresso no fato de que o homem é o
resultado de um superávit de energia: "São
principalmente as extremas riquezas de seus/suas atividades
desenvolvidas que podem ser definidas como uma esplêndida
libertação de superávit.
A energia livre nasce nele/nela e demonstra
continuamente sua inútil magnificência". Para
Bataille, a economia não é mais o
órgão da materialização de
atividade animada, mas o dever de desenvolver uma forma de tempo na
qual tempo perdido é concebível. Bataille
vê trabalho, tempo e riquezas como expressões de
energia. Todo sistema produz mais energia do que pode usar quando se
vê como organização de sua
própria produção de efeitos. Se este
falha em organizar formas de destruição
produtiva, o inevitável superávit de
materialização força
auto-destruição, que por sua vez volta-se
à base do sistema– como violência,
abstração descontrolada que historicamente toma a
forma de guerra. Super-abundância é perda sem
carga e nada em troca. Um sistema vivo pode crescer ou se perder
inutilmente.
A perda inútil é uma meta de
perda controlada que o homem poderia oferecer à
super-abundância de modo a prevenir a fatalidade da
necessidade transformando-se em destruição
negativa. A economia de Bataille's demanda um novo ethos de tempo, que
ele vê como uma lei cosmológica. Deve-se tomar o
próprio tempo ao se considerar as possíveis
repercussões mídia-teóricas dos
conceitos alterados. Os limites de crescimento são mais
potenciais que reais. Liqüefazer superávit para
manter virtuais as realidades como um poder diferencial delas
próprias exigem um tipo de possibilidade, não
mais no sentido de posse, constância e
preservação, e que não deixa o ato de
destruição a cargo das disfuncionalidades de um
sistema que luta histericamente por tornar estas disfuncionalidades
inerentemente inconcebíveis.
Como nenhum sistema é capaz de
preservar, modelar ou intercambiar energias além de um certo
ponto, necessita consumí-la. Isto pode ocorrer como a
destruição dos valores materiais produzidos, mas
não é o fator decisivo. O fator decisivo
é que o sobregasto de energia representa uma forma de
devolver tempo e energia às forças capacitadoras
e nutridoras
VIII
A teoria econômica de Bataille
é fundamentalmente metafísica, por
razões compreensíveis. Bataille radicaliza a
estrutura de Polatsch, etnologicamente examinada por Marcel Mauss, que
também remete às obsessões da
transgressão surrealista na Situationist Internationale - ao
mesmo tempo do trabalho seguinte de Bataille. Este radicaliza o
conceito de Polatsch à medida em que dar torna-se uma
ação não apenas de perda
além de quaisquer cálculos, mas também
um ato de devolução. Por já existir ao
longo da evolução, a perda não
é importante.
O retribuir é mais significativo, pois
representa explicitamente sobregasto explícito e adicional.
Este ethos de devolução toma a forma de um
rompimento ou uma intensidade esbanjadora e não mais de uma
continuidade produtiva ou produtividade contínua. Em outras
palavras, deixa de tomar a forma de trabalho e não pode mais
ser transformado em trabalho. Sobregasto e desperdício
precedem-se à existência humana. A crescente
produtividade de trabalho é incapaz de prover uma
idéia de forma de tempo ou de estrutura de
devolução.
É apenas este tipo de tempo, em
reflexão e sobregasto, que pode formar o
superávit evolucionário natural de energia
obstruída pelo trabalho. O trabalho claramente
não pertence às artes de desperdício e
devolução enquanto experiências
limítrofes. Isto é totalmente aparente nos tempos
atuais, que parecem profundamente incapazes de tornarem o trabalho uma
quebra e uma devolução, uma
transformação dele próprio.
IX
Quando a razão do sistema, a
racionalidade de produção e o progresso forma
tão longe que o trabalho é uma
função da auto-organização
do sistema, chegamos a um ponto onde o capitalismo não
é mais fundamentalmente um domínio
econômico e sim político: um relacionamento
obrigatório. Mas nada é resolvido por ser baseado
em assimetria e não permite uma suave
manutenção própria do sistema. Como
sempre, desvios entrópicos significam que
funções básicas existem em empregos
cansativos, pouco atraentes, entediantes, irritantes, inclusive
prejudiciais ou pouco reconhecidos. Quem junta este lixo? Esta
questão permanece como a metáfora inconclusiva da
questão básica.
O efeito racional do sistema pode parecer quase
perfeito, mas a forma obrigatória política e
social que conecta subsistência e portanto dinheiro com
trabalho e com isto tempo alugado, ainda toma a forma arcaica de uma
permanente fatalidade . Por enquanto, ainda não
há divisão de emprego, elegância
funcional de longo prazo do igualitário ou
divisão justa do necessário.
A natureza radical da forma de tempo
esboçada aqui como um propósito de vida enquanto
desperdício falhou até agora necessariamente e
sistemicamente por causa da conexão entre trabalho e
salário. A formação de sistemas e
formas reconhecidas de não fazer nada nunca foram
encontradas ou procuradas. Então o desemprego é o
maior problema humano, econômico e social? Não,
é a maior utopia – uma tentativa de dar-se a
tarefa com a qual a vida pode se auto organizar como sobregasto.
Hoje o tempo não é mais a
forma de concretização do trabalho e seus
equivalentes – subsistência e reconhecimento social
– mas um meio de conflitos culturais que são
basicamente políticos. Isto não é
possível de ser consertado pelos ditames do tempo de
brevidade, expressos na tentativa presunçosa de permitir que
todos escolham e modulem seus horários por si
sós. É claro, o conceito atual de ‘nova
mídia' não é nada além de
uma área de conflito na luta por qualidades de tempo
radicalmente diferentes.
Hans-Ulrich
Reck, nascido em 1953 é filósofo,
comunicólogo e professor titular da Escola Superior de Artes
da Mídia em Köln, Alemanha. Autor de
inúmeros livros, dentre os quais Kunst als Medientheorie
(2003), Mythos Medienkunst (2002), Erinnern und Macht (1997),
Zugeschriebene Wirklichkeit (1994). Foi professor nas Universidades de
Viena, Basel e Zurique.
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Edição de texto:
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