GHREBH-, em indoeuropeu significava 'cavar, escavar', transformou-se, no germânico antigo, em /graban/ com o significado de 'escavar' ; transformou-se também em /graver/ (francês) com o sentido de lavrar em oco ou em relevo uma inscrição ou figura. As variantes GEREBH- ou GERBH- significam 'riscar, arranhar'. Dão origem ao anglo-saxônico /ceorfan/ 'recortar', ao alto alemão antigo, /kerban/ 'fazer uma incisão', ao norueguês / krabbe/ 'escavar'. Em grego deu /graphein/, como 'gravar, lavrar em baixo ou alto relevo uma inscrição ou figura, escrever'. Em latim /graphium/ significa 'estilo, ponteiro para escrever na cêra' e /graphiarium/ quer dizer 'estojo para guardar os estiletes com que se escrevia'. Dessa raiz comum vieram todas as palavras derivadas e compostas de gravar e grafia como biografia, gráfico, grafite, parágrafo, gravação, gravura. Também dessa mesma raiz provém o gre o /gramma/, com o significado de 'letra, linha' e seus compostos e derivados como programa, gramática, epigrama, anagrama, cardiograma e telegrama. (Fontes: Roberts/Pastor, Diccionario etimológico indoeuropeo de la lengua española; Kluge, Etymologisches Wörterbuch der deutschen Sprache; Faria, Dicionário escolar latino-português; Pokorny, Indogermanisches Wörterbuch)
brasil número 7 | são paulo | outubro de 2005   ISSN 1679-9100



Trabalho, Tempo e Desperdício: 
Perspectivas da Crítica à Economia Política da Nova Mídia

por Hans-Ulrich Reck
(Kunsthochschule für Medien - Colônia – Alemanha – HUReck@aol.com)
 


I

O aspecto mais cruel do trabalho é que ele, na verdade, mais cria do que retifica uma necessidade. Esta experiência não é meramente histórica, mas simbólica da elevação metafísica do trabalho. A promessa de paraíso que ele oferece freqüentemente cai na ameaça de ser retirada por aqueles cujo direito a ele fora perdido, por qualquer motivo. 

Ao mesmo tempo, do trabalho depende a ameaça à existência. Ele define, recompensa, educa, orienta, pune. Hoje em dia, ser privado de trabalho é sério, simplesmente pelo fato reconhecidamente assustador de que ele é somente a – até agora inalterada – ligação entre trabalho e salário que determina o realização dos meios para necessário atendimento de necessidades. Esta relação obrigatória não é uma invenção capitalista. 

Eu desconfio que seja mais uma prova do bicho papão da história natural. Entretanto, o modelo organizacional capitalista para esta necessidade, disfarçado de história natural, é crescentemente encoberto pela cultura e justificado esteticamente, especialmente por meios de novas tecnologias de comunicação que se propõem não-materiais – uma figura de mistificação, à qual surpreendente muitos estão prontos para sucumbir.



II

Imaterialidade e o mito da inteligência coletiva, tão freqüentemente alardeados em ideologias de mídia como o efeito inevitável da tecnologia, basicamente significam submeter ou adaptar arquiteturas e hierarquias de comandos e processos ao sistema telematicamente determinado. O estabelecimento do sistema de trabalho, dinheiro, lucro e reconhecimento vai se direcionar da Internet e da World Wide Web para espaços individuais. Em risco está a boa vontade, cumprida pela sociedade, de aprender a formatação das novas tecnologias de comunicação em relação à sua própria vida, possuída e mostrada como uma pré-condição para todas as qualificações concebíveis, até certo ponto, por própria natureza. De forma correspondente, na economia de políticas e redes de informação, tudo o que acontece deixa de ter significado sem referência a cultura e comunicação, e não é capaz de causar efeito em nada. O avanço individual substitui a salvaguarda social do trabalho e condições até agora padrões de contratos.

A declaração de um avanço pessoal como uma realização cultural, que dá direito à admissão no mundo de trabalho no nível dos últimos padrões tecnológicos, depende da aquisição individual não paga de pré-condições de qualificação. Os serviços anteriores são substituídos pela linguagem de comandos. Esta linguagem ocupa uma posição proeminente na Teoria da Mídia, na qual a construção final da mídia de meios – que significa, de forma bizarra, muito mais o computador do que a linguagem – parece ser provida do modelo construtivo hierárquico de comandos militares. Tem também seu lugar nas decorações utópicas simbólicas de propaganda padrão de mídia, por exemplo, ao incitar que “todos devem estar conectados”.

Qualquer um não envolvido continua marginalizado, estigmatizado por falhar em apoiar o progresso. A inteligência coletiva freqüentemente invocada (Pierre Lévy) – que propaga uma universalidade sem totalidade e que vê realidades virtuais do cyberespaço e fluxo livre de informações como a personificação da utopia de liberdade da revolução francesa – é baseada em postulados obrigatórios. Todos devem estar ligados a alguém. Ele(a) devem praticar e o atestam, na realidade e na manutenção de atualizações.

Subjetividade torna-se uma condição predestinada de possibilidades sociais., porque a negação de hierarquias e horizontalidade mistificada de utopias de comunicação é impensável sem a contínua demanda de que todo membro da rede global de informação continuamente reprojeta, define e simultaneamente se supera na competição supostamente livre e divertida com outros.

O fascínio por esse tipo de superação une visões de direita e esquerda e versões de cultura global de rede. Tanto a cooperação quanto a inteligência coletivas reproduzem as condições de uma resposta de um sistema, que não permite formas diversas ou heterogêneas de tempo, economias de desperdício ou insistência em um tempo livre, mas inutilmente gasto e inerente ao sistema.



III

A eficiência operacional normal que deveria ser continuada como um negócio na Internet, normalmente adquire informação pedindo a um grupo representativo de pessoas para responder a uma breve compilação de questões e interesses na forma de uma lista. A condição é que as opções apresentadas sejam familiares e que um equilíbrio entre as opções procuradas e oferecidas possa ser aproximadamente formulado. É sugerido que a sociedade global de informação será qualitativamente dependente da inclusão de conceitos mais complexos. Isto pode ser ilustrado por um caso completamente diferente, informativo justamente por sua estranheza: o bazar arcaico. Isto representa um modelo específico de uma cultura de informação que funciona de maneiras completamente distintas da eficiência operacional da fábrica e do escritório. Também funciona para tarefas que ainda não foram dominadas na economia global.

O bazar revela formas híbridas de ritmos temporais e expectativas de uso, uma montagem de interesses heterogêneos e auto-projetos. Diversos ciclos coexistem, entrelaçam-se, penetram-se e quebram-se novamente, por exemplo, estável e instável, constantes e singulares reversíveis, ofertas e demandas permanentemente localizadas e seletivamente deslocadas. Dados ou conhecimento pouco claros são as condições e estipulações. O único conhecimento disponível é a da principal incapacidade de saber de estipulações concretas. A qualidade do produto, as relações de valor e economia de preços, a diversidade de ofertas do dia com produtos similares e os limites de estoque de produtos não-similares: todos esses fatores mudam em questão de dias, e freqüentemente, horas.

As possibilidades de mercado estão ligadas ao constante posicionamento de todos os envolvidos no negócio e nas negociações. Eles estão localizados em um sistema de turbulência comparável ao dos mercados de ação de hoje. O bazar funciona de forma a reduzir, na verdade, o não-conhecimento para uma pessoa, aumenta-o ponto a ponto para outra e o torna permanentemente defensável para ainda outra. A informação não é trocada, mas uma base que permitirá a negociação é procurada. É na busca à formação que o etnologista Clifford Geertz identifica a experiência central do bazar. "Cada aspecto da economia de bazar reflete o fato de que o problema principal em relação a seus participantes (ou seja, 'bazaaris') não é balancear opções, e sim encontrar quais elas são". (Geertz: 80) Comércio e negociação são multi-dimensionais e intensivos. O caso individual é mais importante que a regra geral, que falha em tornar-se concreta. O bazar não funciona por meio de uma lista resumida de opções apresentada por um grande número de pessoas, e sim o contrário, com um grande número de questões nevrálgicas apresentadas apenas a um punhado de pessoas. 

Conceitualmente, esta forma de avaliação subjetiva de modelos abstratos ainda não foi usada para realidade virtual porque representa uma entidade de um número de tamanhos singulares e heterogêneos em controle, que não podem ser facilmente padronizados ou programados. Acredito que deveríamos considerar a demanda pela subjetividade, refletida por estes modelos, como uma moeda corrente na habituação cultural ao digitalizado em detrimento do tempo. A vivacidade do bazar – gesto, linguagem, teatralidade, apresentação, enfim: a cultura da performance – é análoga e oposta aos valores propagados da sociedade da Internet. O que está por detrás disto ainda está por ser visto.



IV

A subjetividade encenada e a criatividade imposta estão escondidas nas raízes das demandas por uma estetização de compulsões de subsistência e pelo ‘livre subjugo’ na nova hierarquia de dominância da mídia. Uma mudança decisiva e decidida está a caminho. A auto-disciplina simbólica está substituindo a máquina industrial. A criatividade está se tornando um sinônimo para heterônimo: 'trabalho' como 'idolatria', como sempre. As tentativas de hoje de parar o trabalho, ele mesmo a própria crise que parece ensejar, não são mais expressas em respeito à religião, mas em respeito à imersão em uma tecnologia aparentemente permeada de fervor religioso. Auto-estilização oferece promessas de liberdade, até o ponto em que o ímpeto pela individualidade se afirma de forma esbanjadora, assim como sua forma simbólica, como uma máquina social gigante. Isto explica porque imagens, projeções e logotipos substituíram a máquina iconoclástica da indústria como o motor do desenvolvimento cultural. Por outro lado, de acordo com a organização de sistemas de trabalho de Henry Ford, a fábrica é a sociedade e vice-versa.

A desejada síntese entre o sistema micrológico da separação cada vez mais rápida e perfeita de processos de trabalho na linha de produção e o sistema macroscópico de racionalidade do consumidor, de acordo com salários, produziu duas conseqüências históricas a partir do momento em que ambos se mostraram disfuncionais para a sociedade: primeiramente, o cerceamento do poder individual de tomada de decisão autônoma e segundo, o aumento da subjetividade determinada pelo poder de compra. Estas duas estratégias de auto-afirmação gratificadas no capitalismo desenvolvido – a carreira profissional e a biografia narrável – eram ambas preenchidas e ameaçadas por muitos fatores do modelo de Henry Ford.

O reconhecimento do trabalho era crescentemente vinculado à encenação do poder de compra, auto-apresentação simbólica e prestígio. A representação exterior reforçou a pressão de subsistência – separada do trabalho executado segundo o ditame da resposta rigorosa de racionalidade operacional otimizada. Este modelo se baseava no ideal de subjetividade, familiar do 'Bildungsroman' de classe média. O modelo Ford deu inevitável vazão à mesma crise que lutou para resolver. Ele padronizou requisitos de qualificação profissional com respeito a pessoas que deveriam estar agindo simultaneamente como consumidores instruídos e culturalmente confiantes, em uma esfera autônoma separada do trabalho. Os requisitos de negociações internas de empresas foram mantidos o mais breve e elementar possível, receberam formas e modularizações estereotipadas,enquanto as qualificações para o uso de bens eram baseadas em instrução complexa e habilidade de orientação.

O modelo de Henry Ford falhou fundamentalmente porque quebrou um princípio básico de Karl Marx e do capitalismo: a saber, a alienação do trabalho, ou trabalho em geral, apenas pode ser produtiva se, mesmo que fragmentada, pode ser experimentada como o desenvolvimento da subjetividade. O modelo de Henry Ford fundamentalmente tira o crédito do trabalho, em todas as frentes: para o capital, o trabalho é meramente um seguro individual de subsistência de consumo. Para o próprio trabalhador, o trabalho é exatamente o mesmo, apenas dissociado. Neste sentido, a mecanização do trabalho perde aquilo que o faz social – não menos o orgulho que as pessoas tiveram dos frutos de seu próprio (ainda que em um nível rudimentar) trabalho. Isto não é mais possível nos mundos de Taylor ou de Ford. O corpo bem treinado, fragmentado, disciplinado, instrumentalizado, aprimorado e usado está localizado em nichos de descanso, um símbolo de ínterim entre processos ainda não mecanizados.



V

Diversas estratégias sociais tentam agora responder a essa crise. A sociedade de espetáculo tornou-se o modelo mais bem sucedido, mas continua inútil, no fundo, porque mais intensifica do que supera a crise. Com sua permanente separação e ruptura de energias em demonstrações ainda mais delirantes de bens, luxo e consumismo, a sociedade de espetáculo aprendeu sua lição macro-econômica a partir da falha de Ford. 

Neste sentido, o trabalho desaparece gradualmente do arsenal de provedores de segurança vitalícios, com o mercado de ações e especulação crescentemente tomando seu lugar. A própria subsistência torna-se o capital que deve ser multiplicado e com isto posto em risco, por razões de crescente pobreza. O investimento de recursos de vida torna-se ainda mais descuidado. Apenas aqueles que podem provar sua força ainda pertencem à sociedade.

As apostas continuam subindo. O que exatamente significam o esforço intenso do dia eficiente de trabalho e o conseqüente valor crescente da existência do consumidor é difícil de entender completamente atualmente, apesar dos fundamentos teóricos dos recomendados jogos de risco já haverem sido descritos vividamente, precisamente e cinicamente por Guy Debord em "The Society of Spectacle" (escrito em 1967). A imaginação tem sido, desde então, desigual ao fluxo delirante e incessante de demonstrações ainda mais ambiciosas na sociedade do espetáculo.

De forma semelhante, desde a lei que determina que dinheiro não pode mais ser transformado em ouro, e mais tarde, a introdução de câmbios flutuantes, por muitas vezes o produto interno bruto, ou o produto nacional bruto em geral, é movimentado diariamente por especulações do mercado de ações. O capital delirante, a convulsão do tempo de vida e os excessos da sociedade de espetáculo marcam os limites de um novo território, inteiramente remapeado desde os dias de Marx e Smith, Taylor e Ford. 

Para todos aqueles agora supérfluos aos processos da sociedade, tudo o que resta é sofrer e agüentar a pressão de uma autonomia suportada pelo sistema, para melhor ou para pior. Enquanto eles estão ocupados trabalhando em sua subjetividade e auto-crítica, direitos tradicionais e adquiridos de subsistência com respeito ao público não são mais reconhecidos. Não sendo mais um fator, parecem ter se tornado redundantes.



VI

O Comprometimento com a companhia, a lealdade e os outros recursos de um processo de produção fundamentados em trabalho foram dramaticamente desvalorizados na sociedade de espetáculo e na economia pós-Ford de continuidade e processos de aprendizado. Isto é provado mais claramente pela tendência de 'job-hopping' (saltar de um emprego a outro) dos últimos anos, a mudança rápida de emprego, que não tem mais o mérito do título ‘trabalho’ porque os respectivos requisitos sempre foram preventivamente delegados a indivíduos profissionalizados por constante auto-educação. O computador também representa o fato de que profissões não são mais possíveis, tampouco desejadas.

A demanda por responsabilidade mais pessoal, mesmo nos mais baixos escalões do dependente mundo do trabalho, ilustra até que ponto a pressão de constante auto-apresentação comunicativa cresceu, e também mostra que este não é um fenômeno isolado, mas uma compulsão inerente ao sistema. Na mesma medida em que o macro-indicador trabalha em relação a uma libertação de deveres sociais, trabalho 'on the front' é determinado pelo dever da auto-organização de acordo com regras empresariais e a premissa de retorno de capital. O que parece um progressivo colapso de hierarquias empresariais em favor de redes auto-organizantes em trabalho de equipe organizado significa basicamente uma compulsão continuamente demonstrada para se concretizar realizações. 

A confusão da dinâmica, tomada de risco e criatividade disfarçam o fato de que o desejado personagem social novo e inovador não está de acordo com um projeto social, mas com a injusta demanda por flexibilidade determinada pelo sistema, que difere radicalmente dos conceitos de Taylor e Ford que, em contraste, parecem social-românticos. A referência a inovação, subjetividade, responsabilidade pessoal e dinâmica também disfarça o fato de que a mudança da segurança da carreira profissional e a compensação pela carga com uma pequena mas autônoma segurança para a equipe auto-organizada com dados valores de eficiência mas sem dadas formas educacionais levou à desorganização de categorias de tempo, com uma variedade de repercussões.

De forma crescente, todo projeto e equipe começam dissimulando trabalho preliminar e tradição. Superficialmente, 'job-hopping' é uma forma interessante de nomadismo, análoga ao leve surfe nas ondas de informação digitalizada na World Wide Web. Na verdade, todos os ritmos temporais ligados a processos de aprendizado cumulativos foram unidos em um momento impulsivo de auto-consciência seletiva e auto-descrição instantânea.. É exatamente a liberdade de organização que deve garantir o cumprimento de metas estipuladas – e, deve-se acrescentar, nada mais. Não apenas a vida tornou-se economicamente supérflua porque não pode ser financiada, mas também o próprio trabalho que a deveria ter financiado. Políticos de todas as cores repetem a necessidade de uma redução de índices de emprego de forma absurdamente freqüente, apenas para colocar o trabalho como o meio mais importante de se desenvolver a subjetividade de volta ao centro da existência. Isto ilustra o medo terrível, mobilizado principalmente como uma forma de repelir a idéia de que organização social significativa não pode mais depender de trabalho, produção e melhorias, e sim em abstinência do trabalho, não se fazer nada, desconexão e redução.

O capitalismo corrente não deseja mais sustentar sua organização de trabalho de qualquer maneira, mas quer depender dos lucros dos acionistas. Ainda que isto seja conhecido, não tem conseqüências em termos filosóficos de trabalho. A suposição óbvia é de que política é um pouco mais do que a busca pela dissimulação global desta opinião. A verdadeira provocação não é tanto a dominância do desemprego, mas que o trabalho por si só possibilita a aquisição de dinheiro suficiente, ainda que seja precisamente isto o que o trabalho na verdade não seja mais apto a fazer. A razão para isto vai muito além do capitalismo ou da ética do trabalho protestante. A conclusão inevitável é de que o trabalho deve perder seu significado, não apenas para a economia, mas também em pensamento e imaginação.

Como o trabalho é baseado na sociedade, a conclusão óbvia é de que trabalho e salário não devem mais ser o meio básico de socialização. Também significa (e isto não tem sido totalmente apreciado até agora) que não pode haver uma sociedade suficientemente ampla para acomodar a todos como um componente útil do todo. Em suma, a sociedade não pode mais servir como um todo porque não mais existe como um todo. A conseqüência disto é baseada em uma simples teoria: tempo de trabalho não pode mais ser a forma social predominante de tempo.

O fato do capitalismo não ter encontrado forma para isto, mas distorceu a questão até a destruição é o que faz o capitalismo tão infeliz e prova sua falta de imaginação e sua violenta interpretação de tempo, reduzido ao tempo de produção de bens e valores serializados. A destruição de valores na guerra assumiu hoje os traços de uma guerra civil insidiosa e inicialmente fria na Europa Oriental. Qualquer crítica de economia contemporânea deve ter em mente está destruição inevitável, apesar do efeito distorcido destes sintomas.Isto não é destruição no sentido tradicional: é a forma anterior de produtividade que está em questão.



VII

A crítica básica de teorias econômicas anteriores dos valores e metafísicas de um trabalho exclusivamente de formação de valores origina-se com Georges Bataille, que o seguiu por um número de caminhos estranhos baseados em suas teorias de religião e cosmologia. O modelo de Bataille de economia fundamenta-se em uma dialética irremediável de necessidade e desperdício, no qual o desperdício enquanto limite do mundo da produtividade é planejado ou no sentido do seleto direito de descarte de poucos ou um exemplo inconcebível de destruição negativa. Em contraste, Bataille faz a hipótese elementar de que o trabalho foi amarrado com uma dupla necessidade paradoxal muito antes do capitalismo: a perda de energias desencadeada por superávit e a ausência de uma destruição produtiva de valores nos quais o superávit não é mais representado.

Ambas as formas de necessidade são manifestadas como trabalho. De acordo com Bataille, o trabalho deve ainda assim ser descontínuo. O que o inevitável superávit de vitalidade não pode suportar é o que proporciona a constância do trabalho. Escandalosamente, Bataille sustenta que os males do mundo estão fundamentados em sua riquezas. São especificamente as riquezas de um tipo particular que afirmam uma pessoa cosmologicamente como um desperdício de energias, também expresso no fato de que o homem é o resultado de um superávit de energia: "São principalmente as extremas riquezas de seus/suas atividades desenvolvidas que podem ser definidas como uma esplêndida libertação de superávit.

A energia livre nasce nele/nela e demonstra continuamente sua inútil magnificência". Para Bataille, a economia não é mais o órgão da materialização de atividade animada, mas o dever de desenvolver uma forma de tempo na qual tempo perdido é concebível. Bataille vê trabalho, tempo e riquezas como expressões de energia. Todo sistema produz mais energia do que pode usar quando se vê como organização de sua própria produção de efeitos. Se este falha em organizar formas de destruição produtiva, o inevitável superávit de materialização força auto-destruição, que por sua vez volta-se à base do sistema– como violência, abstração descontrolada que historicamente toma a forma de guerra. Super-abundância é perda sem carga e nada em troca. Um sistema vivo pode crescer ou se perder inutilmente. 

A perda inútil é uma meta de perda controlada que o homem poderia oferecer à super-abundância de modo a prevenir a fatalidade da necessidade transformando-se em destruição negativa. A economia de Bataille's demanda um novo ethos de tempo, que ele vê como uma lei cosmológica. Deve-se tomar o próprio tempo ao se considerar as possíveis repercussões mídia-teóricas dos conceitos alterados. Os limites de crescimento são mais potenciais que reais. Liqüefazer superávit para manter virtuais as realidades como um poder diferencial delas próprias exigem um tipo de possibilidade, não mais no sentido de posse, constância e preservação, e que não deixa o ato de destruição a cargo das disfuncionalidades de um sistema que luta histericamente por tornar estas disfuncionalidades inerentemente inconcebíveis.

Como nenhum sistema é capaz de preservar, modelar ou intercambiar energias além de um certo ponto, necessita consumí-la. Isto pode ocorrer como a destruição dos valores materiais produzidos, mas não é o fator decisivo. O fator decisivo é que o sobregasto de energia representa uma forma de devolver tempo e energia às forças capacitadoras e nutridoras



VIII

A teoria econômica de Bataille é fundamentalmente metafísica, por razões compreensíveis. Bataille radicaliza a estrutura de Polatsch, etnologicamente examinada por Marcel Mauss, que também remete às obsessões da transgressão surrealista na Situationist Internationale - ao mesmo tempo do trabalho seguinte de Bataille. Este radicaliza o conceito de Polatsch à medida em que dar torna-se uma ação não apenas de perda além de quaisquer cálculos, mas também um ato de devolução. Por já existir ao longo da evolução, a perda não é importante.

O retribuir é mais significativo, pois representa explicitamente sobregasto explícito e adicional. Este ethos de devolução toma a forma de um rompimento ou uma intensidade esbanjadora e não mais de uma continuidade produtiva ou produtividade contínua. Em outras palavras, deixa de tomar a forma de trabalho e não pode mais ser transformado em trabalho. Sobregasto e desperdício precedem-se à existência humana. A crescente produtividade de trabalho é incapaz de prover uma idéia de forma de tempo ou de estrutura de devolução. 

É apenas este tipo de tempo, em reflexão e sobregasto, que pode formar o superávit evolucionário natural de energia obstruída pelo trabalho. O trabalho claramente não pertence às artes de desperdício e devolução enquanto experiências limítrofes. Isto é totalmente aparente nos tempos atuais, que parecem profundamente incapazes de tornarem o trabalho uma quebra e uma devolução, uma transformação dele próprio.


IX

Quando a razão do sistema, a racionalidade de produção e o progresso forma tão longe que o trabalho é uma função da auto-organização do sistema, chegamos a um ponto onde o capitalismo não é mais fundamentalmente um domínio econômico e sim político: um relacionamento obrigatório. Mas nada é resolvido por ser baseado em assimetria e não permite uma suave manutenção própria do sistema. Como sempre, desvios entrópicos significam que funções básicas existem em empregos cansativos, pouco atraentes, entediantes, irritantes, inclusive prejudiciais ou pouco reconhecidos. Quem junta este lixo? Esta questão permanece como a metáfora inconclusiva da questão básica.

O efeito racional do sistema pode parecer quase perfeito, mas a forma obrigatória política e social que conecta subsistência e portanto dinheiro com trabalho e com isto tempo alugado, ainda toma a forma arcaica de uma permanente fatalidade . Por enquanto, ainda não há divisão de emprego, elegância funcional de longo prazo do igualitário ou divisão justa do necessário.

A natureza radical da forma de tempo esboçada aqui como um propósito de vida enquanto desperdício falhou até agora necessariamente e sistemicamente por causa da conexão entre trabalho e salário. A formação de sistemas e formas reconhecidas de não fazer nada nunca foram encontradas ou procuradas. Então o desemprego é o maior problema humano, econômico e social? Não, é a maior utopia – uma tentativa de dar-se a tarefa com a qual a vida pode se auto organizar como sobregasto.

Hoje o tempo não é mais a forma de concretização do trabalho e seus equivalentes – subsistência e reconhecimento social – mas um meio de conflitos culturais que são basicamente políticos. Isto não é possível de ser consertado pelos ditames do tempo de brevidade, expressos na tentativa presunçosa de permitir que todos escolham e modulem seus horários por si sós. É claro, o conceito atual de ‘nova mídia' não é nada além de uma área de conflito na luta por qualidades de tempo radicalmente diferentes.


Hans-Ulrich Reck, nascido em 1953 é filósofo, comunicólogo e professor titular da Escola Superior de Artes da Mídia em Köln, Alemanha. Autor de inúmeros livros, dentre os quais Kunst als Medientheorie (2003), Mythos Medienkunst (2002), Erinnern und Macht (1997), Zugeschriebene Wirklichkeit (1994). Foi professor nas Universidades de Viena, Basel e Zurique.




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Traduçao: Ricardo Lacerda Baitelo
Edição de texto: Edson Capoano e Juliano Cappi


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