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So much trouble:
notas sobre a música popular e o contexto midiático contemporâneo
Por Gonzalo Abril
I
O refrão da famosa música, “So much trouble in
the world”, hoje parece mais atual que há um quarto de século, quando Bob Marley
incluiu-a em seu disco “Survive” (1979). E não somente no que se refere às
relações políticas e econômicas internacionais, mas também pelo que afeta os
processos culturais. Descentralização, desestabilização, deslocalização,
oligopolização e também resistência e antagonismo, são alguns dos nomes
concretos que hoje adquire a “trouble” cultural, e mais particularmente a crise
da cultura musical popular que poderíamos considerar já em sua “terceira idade”
midiática. Farei uma breve leitura dessas crises a partir dos pressupostos
teóricos:
1) Não há textos (sejam poemas, filmes ou
músicas) nem práticas culturais que hoje fiquem fora do espaço de ação da mídia,
nem eles podem ser entendidos fora de suas funções de mediação, que é o conceito
fundamental no momento de estudar a relação entre os produtos culturais, com a
chamada música popular e os sistemas midiáticos.
2) A mídia desempenha um papel ambíguo e até
mesmo contraditório, tanto a partir da perspectiva da liberdade e dos valores
democráticos como também a partir do ponto de vista da inovação e da pluralidade
estética. A tensão entre uma tendência à homogeneização e outra em direção à
diferenciação cultural é uma constante no papel histórico da mídia de massa,
tanto na música quanto na imagem visual. Se mediante um simples trocadilho é
possível fazer com que a palavra comunicação signifique “ação comum”, e esta é
uma adequada definição rudimentar; mediação significa algo mais: determinar as
relações desta ação comum em termos de alteridade, de poder, de desejo, de
conflitos, expropriação e de aproximação; carregá-las de sentido, carregá-las de
conteúdo simbólico.
Com a idéia de mediação trata-se de resistir ao
simplismo da transmissão (já desde o histórico trabalho que continua sendo
imprescindível de Martín–Barbero, 1987). Os meios não transmitem conteúdos
(música, palavra, audiovisual...), mas sim mediam as relações humanas, o
conhecimento e a sensibilidade. Na modernidade, grande parte da produção e da
distribuição de objetos culturais tem passado, progressivamente, à gerência da
mídia, e com isso quase toda a gestão simbólica das sociedades tem sido
submetida às operações da indústria e do mercado. Desde esse ponto de vista, a
mídia não é outra coisa senão a expressão institucional e econômica dessa
transformação.
Nela podemos ler, de uma parte, a expansão do
capitalismo, no sentido da redução à relação de mercadoria como “única
comunidade”, segundo Agnes Heller – (2002: 58/59). Mas por outro lado, também, a
“massmediación” abriu novas oportunidades à emancipação e à criatividade
social, algo que Walter Benjamin (1882/1936) analisou muito lucidamente há quase
70 anos a respeito do cinema, mas que pode se estender ao conjunto do espaço
midiático mutatis mutandis.
Nos nossos dias vivemos enormes convulsões no
espaço cultural mundial, de forma que se estão alterando radicalmente os mapas
dos saberes, dos gostos, dos modos de relação, tanto no chamado primeiro mundo
quanto no mundo subdesenvolvido. Fala-se muito, nesse contexto de discussão, das
transformações nos imaginários coletivos, e aqui seria necessário recordar,
precisamente, que as imagens que formam parte desses imaginários não são somente
imagens visuais ou visualizáveis, mas também imagens sonoras. Entre essas a
música tem adquirido uma importância enorme na conformação das representações
coletivas, das identidades, das formas sociais de produzir e compartilhar
significados; particularmente entre os setores jovens da população.
Appadurai (2003) tem se referido à imaginação
das atuais populações migrantes, à criatividade das novas comunidades
transfronteiriças (as diásporas africanas, asiáticas, latino-americanas...) que
estão transformando as geografias culturais, do sentimento e da sensibilidade na
atual conjuntura da mundialização. Basta ver a enorme influência da cultura
magrebe nas culturas juvenis da França, nos dias atuais; não se trata somente da
música Raï, mas também da adoção de palavras e costumes procedentes da
Cabila argelina entre os jovens parisienses de cultura cristã. Inclusive alguns
deles hoje em dia celebram e compartilham o Ramadã (um Ramadã, por
assim dizer, leigo) com seus companheiros de origem magrebe, e vão com eles a
discoteca à noite.
Esses imaginários transfronteiriços a que se
refere Appadurai, se sustentam, sem dúvida, e sem alternativa possível, em
discursos e práticas midiáticas: as camisetas estampadas, os cartazes
publicitários e os grafites, o rap, a dança de rua ou as moradias
autoconstruídas nos bairros pobres – enumera Appadurai – mostram, ao mesmo
tempo, que os imaginários midiatizados voltam a se inserir “nos repertórios
locais da ironia, do descontentamento, do humor ou da resistência”. Nesse
sentido, o consumo contemporâneo é trabalho e obrigação como parte das práticas
do capitalismo, mas também espaço de prazer e, como tal, de atividade de
transformação. Appadurai sugere, em suma, que o prazer excede inevitavelmente
sua funcionalização instrumental sob o capitalismo.
II
Para entender as atuais relações da música
com/em seu ecossistema midiático, para conhecer as condições de produção e
distribuição da música, necessitamos, sem dúvida, de um exame da indústria e dos
mercados culturais, e de uma análise em termos de economia política dos meios. A
produção, a distribuição e o consumo não são fenômenos separáveis das formas de
experiência e de consciência, ou seja, das condições culturais ou simbólicas
desses processos.
É fácil ver que formas de distribuição diversas,
como por exemplo a gravação discográfica, o concerto direto ou a discoteca, são
ao mesmo tempo as plataformas para modos diferenciados de experiência, de
relação e de aprendizagem social e certamente para a consumação de um
determinado sentido da música e da escuta; por exemplo, através do “diskman”
se produz uma relação de “imersão”, de certo modo semelhante à experiência
da leitura literária. No metrô de Madri essas duas práticas sociais parecem
acontecer com a mesma naturalidade, talvez com uma certa diferenciação por
idade; em geral lêem os mais velhos, que costumam ir sentados, e vão escutando
música os jovens, que costumam ir em pé.
No concerto ou na discoteca se produz algo bem
diferente: uma festa ou um ritual social, ou ambas as coisas, em que a
participação coletiva é fundamental e adquire expressões muito complexas;
simultaneamente há espaços comunicativos de grupo, de transgrupo, de multidão e
ademais, um espaço comunicativo deslocalizado que atravessa os outros, como é o
espaço dos telefones celulares, que enlaça o íntimo e o público, o próximo e o
distante, que dispersa a relação social e ao mesmo tempo promove novas
experiências do “compartilhado”.
Obviamente as condições de recepção e, portanto,
o sentido que adquire a música para o ouvinte são diferentes quando se está
recolhido entre seus fones de ouvido, numa modalidade de experiência “celular”,
ou quando se está dançando com seus iguais em meio a uma grande multidão.
Não sou um bom conhecedor das estruturas atuais
da indústria e do mercado cultural, mas compreendo a enorme importância de
alguns fenômenos que concernem à produção e circulação da música popular.
(1) A concentração: o fato de que cinco
corporações dominam 96% da música que circula no mundo, ficando apenas 4% para
todas as demais, é sem dúvida extraordinário, por mais que no mercado da música
de massa essa tendência monopolista ou oligopolista seja bastante antiga. De
acordo com Méndez Rubio (1997) a concentração e a transnacionalização da
indústria e do mercado discográfico são muito intensas desde a década de 70; já
nos primeiros anos da década de 80, Michael Jackson vendeu 30 milhões de cópias
de seu célebre Thriller. O processo de concentração na indústria e no
mercado da música tem seguido, não obstante, as mesmas pautas que o restante da
indústria cultural, e entre elas, junto a concentração, a diversificação e fusão
de distintos setores. Ao lado das “clássicas” empresas da indústria audiovisual
(Sony, Grundig, Pioneer), coexistem as que combinam audiovisuais e
telecomunicação (ITT, GTE), as polivalentes (Philips) e outras
discográficas que têm investido simultaneamente em audiovisual, telecomunicações
e sistemas militares (como a desaparecida RCA e a EMI). Em todo o
mundo – continuo citando Méndez Rubio – também tem acontecido processos de
absorção das editoras musicais independentes: por exemplo, DRO e GASA,
na Espanha da década de 80 (uma época marcada pelo movimento musical e midiático
da “la movida”) fundiram-se, e absorveram alguma outra pequena editora e
acabaram vendendo seu ativo à Time-Warner nos primeiros anos da década de
90.
(2) A transição de um sistema do tipo difusivo
(o correspondente ao que Moragas denomina era “broadcasting”) a um sistema
reticular (era “webcasting”), prevê, ao mesmo tempo, uma crise do poder das
grandes corporações, a “proliferação, superposição e hibridização dos espaços de
comunicação” e uma nova “centralidade da produção dos conteúdos” (Moragas,
1999). O crescente aumento da distribuição de música através da Internet, junto
com o uso de um novo software de reprodução, como MP3, ampliam ainda mais
o espaço de mercado das companhias discográficas, facilitam uma enorme
acessibilidade e diversificação do consumo musical, incluindo a crescente
distribuição gratuita e/o “alternativa”.
Os novos formatos e circuitos afetam
profundamente o sistema tradicional de alta fidelidade e também os padrões de
escuta. Assim como o vídeo e o DVD têm fomentado entre os jovens o incremento
exponencial do consumo visual – com a consagração cultural de um “visionado”
informativo que, em grande medida desloca a “visão” cinematográfica -, as
tecnologias digitais no setor de áudio podem fomentar uma dessacralização da
escuta que poderia supor, no mesmo sentido, um segundo momento post-aurático na
cultura audiovisual.
(3) Ao menos na Europa é perceptível uma
crescente absorção de atividades culturais de caráter público, como festas,
concertos, espetáculos e festivais, por parte de uma voraz programação
institucional, tanto estatal quanto privada ou semi-pública. As festas de San
Isidro, em Madrid, ou o Fórum de Barcelona 2004, são bons exemplos. Nesse
contexto de “protecionismo interessado”, a celebração de grandes concertos,
espetáculos e outros eventos responde a projetos de política cultural que
constituem ao mesmo tempo grandes operações econômicas e de “mercadotecnia”
política. Neles se introduz uma regulação crescente dos espaços e dos tempos de
interação e do desfrute de amplos setores da população.
Na medida em que – falando com palavras de
Santos (2000) – “os dispositivos culturais que orientam a ação e constituem a
subjetividade (...) estão cada vez mais determinados por práticas sociais
exteriores ao espaço/tempo da produção”, essas formas de regulação incrementam o
controle ou ao menos a tutela, das identidades e dos modos de socialização por
parte de aparatos fortemente centralizados, ainda que “informais”, de produção e
gestão cultural. Nesses processos, a música ocupa um papel determinante; já há
muitos anos nossos gestores e domesticadores culturais entenderam a importância
da ilha de Wight ou do festival de Woodstock como espaços de
aprendizagem e de cultivo de identidade.
III
Além do que esbocei e em estreita inter-relação
com eles, quero assinalar outros processos culturais relevantes em que hoje se
vê implicada a música popular:
(1) A integração do consumo: as práticas de
consumo musical, como as de outros produtos culturais não estão separadas. Ao
redor do consumo de música, ao menos desde há meio século, se desenvolve um
copioso e variado mercado e se desenvolvem outras práticas de consumo
correlativas; por exemplo o consumo de música New Age está associado a
certas tecnologias do Eu (meditação, dietéticas, ginásticas e terapias
alternativas), produtos de vestimenta, alimentícios, cosméticos, turismo e
ecológico, etc... É como se cada estilo ou gênero musical fizesse parte de um
kit de produtos e de hábitos socioculturais setorizados, de tal modo que a
música se embrenha em modos de vida e em ambientes do dia-a-dia particulares de
certos grupos sociais, de idade, de renda, etc.. (Abril, 2003:155-156). Esses
conjuntos integrados de consumo cultural são o terreno em que se cultivam as
chamadas “identidades débeis”, identidades estéticas, por afinidades, estilos e
gostos.
Essa integração do consumo encontra uma estrita
correspondência no nível da produção ou emissão através da “multimedialidade” da
indústria: as grandes companhias estendem suas atividades em áreas de consumo
cultural cada vez mais diversificadas. Quando os estúdios Disney produzem um
filme, exemplificam Herman e McChesney (1999), garantem a exibição nas
televisões pagas, produzem e vendem a música do filme, criam séries de
televisão, produzem amenidades para seus parques de atrações, CD´s, livros,
comics e um variado merchandising.
Durante as últimas temporadas da televisão
estatal espanhola, as jovens estrelas de Operación Triunfo (Operação
Triunfo), um programa de prime time, não triunfaram estritamente como
cantoras, mas como atores e assistentes de outros programas televisivos, modelos
que fazem publicidade da roupa ou do penteado de moda, provedores de modos de
falar, de estilos corporais e sentimentais, ou seja, como modelo estéticos e
morais. Produz-se assim um sincretismo muito eficiente de funções: a orientação
dos gostos dominantes, a codificação dos estilos como signos de identidade, a
promoção de hábitos sociais, modos de comportamento comunicativo, atitudes
cultivadas, etc. O governo de ultradireita de Aznar celebrou sem recato as
contribuições moralizantes desse programa de grande êxito, a cuja ideologia tem
se referido Castanhares (2003) precisamente com a certeira epígrafe de “o êxito
como ideal moral”. Frente a essa produção obscenamente performática do êxito que
se evidenciou em Operación Triunfo, os protestos de muitos profissionais
da música, queixosos da intrusão ou da suposta mediocridade das estrelas
teleproduzidas, têm ecoado no espaço público como uma impotente lamúria de
alguma velha instituição.
Em resumo, a indústria da música segue
emparelhada a todo um contexto de significações e prescrições sociais que os
meios se encarregam de regular através de suas linguagens características
visuais, sonoras ou audiovisuais. A música nunca foi exclusivamente música,
tampouco nas sociedades pré-capitalistas: tem estado vinculada de muitas formas
à religião, à política, à guerra, à resistência... Antes que existissem as
instituições de arte ou as profissões artísticas, a música não estava separada
do conjunto da vida social. Ainda é assim em algumas regiões do mundo, onde não
se entende que alguém não saiba cantar, ou não dance, ou desconheça os
repertórios de canções da comunidade (de boas-vindas, de bodas, de festas,
etc.).
Hoje em dia, de modo semelhante ao que sucedia
nas sociedades antigas, podem se reconhecer “semelhanças” – essa é a expressão
teórica de Paul Willis – entre os valores e os estilos de vida dos grupos, entre
sua experiência coletiva e as formas musicais com que se expressam (citado em
Folce, 2002). Essa engrenagem simbólica pode ser ilustrada, por exemplo, com o
Hip Hop: o modo de conceber a atuação, como um turno entre solistas, onde
o grupo e o indivíduo se alternam e se apoiam de forma coral fala também de uma
sociabilidade e de uma visão de mundo em que se trata de conciliar o apoio mútuo
e a cooperação com a singularidade. A música, nesse sentido, não somente
“reflete” formas de vida e culturas grupais, mas também proporciona modelos
sociais e políticos: não é demasiadamente conhecida a semelhança entre a
orquestra sinfônica e o estado “napoleónico”? Ou entre o sistema de tecituras da
linguagem operística e a família edípica, que tão agudamente apontou Barthes
(1983)?
(2) A debilidade dos limites entre a chamada
alta cultura e a cultura de massa. O modelo de difusão massiva,
caracteristicamente moderno, tem colocado, junto à amplitude da distribuição, a
homogeneização e a padronização dos produtos culturais, e ao mesmo tempo o
desenvolvimento das formas de consumo atomizadas. Por exemplo, como aponta
Méndez Rubio (2003), a indústria discográfica e a tecnologia Hi-Fi
substituíram grande parte do consumo de música do âmbito privado, dando alento
às formas contemporâneas de domesticidade/domesticação.
Ao mesmo tempo, os espaços exclusivos da difusão
pública da cultura elitista, herdada da sociedade burguesa do século XIX e
orientada para a reprodução e para a “distinção” hierárquica (o concerto
clássico ou a ópera, por exemplo) se dissipam ou se ampliam de forma
interclassista, além de se reverterem também ao âmbito privado da escuta
doméstica. Ao mesmo tempo, e ainda quando as expressões participativas e
multitudinárias seguem sendo tipicamente associadas ao Rock, também a
mal chamada música clássica atrai multidões, e todo um setor da alta
cultura musical pende em direção ao Pop (N.T. No original, “la cultura musical
bascula hacia el pop”). O exemplo mais conhecido é dos três tenores, mas na
Espanha também não esquecemos os experimentos de Luis Cobo ou o dueto Caballé/Mercury.
A partir de suposições paternalistas e/ou de divulgação, programas de rádio como
Clássicos Populares, da Rádio Nacional Espanhola, conseguem êxito quando
massificam a música da alta cultura européia.
(3) Outras veneráveis dicotomias como
local/global e centro/periferia também têm sido desestabilizadas pelo surgimento
da música popular no recente processo da mundialização, com todos seus efeitos
de importação, contaminação e hibridização.
Por um lado se tem produzido um generalizado
deslocamento cultural das músicas (aqui, a forma plural parece obrigatória).
Stokes (1994) em um trabalho intitulado A Construção Musical do Lugar,
assinalava precisamente que a música desperta de uma forma especial o sentido do
local, na medida em que os conhecimentos locais têm um forte caráter sensorial e
vinculado à experiência. No entanto, com a circulação e explosão das músicas de
diferentes origens geográficas, esses contextos particulares tendem a se
dissolver.
Por outro lado se detectam novas formas de
relocalização que não derivam tanto da recuperação do autóctone, ou do étnico,
tal como o entendem os estudos folclóricos conservadores ou o nacionalismo
romântico, quando da maneira freqüentemente sutil em que o global atravessa o
local (ORTIZ, 1998); onde o local aparece, pois, como um efeito de refração mais
que uma expressão de autenticidade cultural. A atual multiplicação das “cenas”
da música popular, ainda que orientada pela proliferação de correntes
transnacionais (Rap, Rock, Dance, World Music,
etc.), dá lugar a particularidades nacionais e inclusive locais bastante
diversificadas. No Hip-Rop espanhol, por exemplo, Mala Rodríguez
“sevilhaneia” o Rap, enquanto Arianna Puello o refrata com ecos da
diáspora caribenha.
(4) As relações interculturais, crescentemente
mediadas pelas indústrias culturais, pelas representações publicitárias e pelas
práticas do turismo, criam espaços “imaginários” de representação e de
comunicação em que prevalece a funcionalização mercantil do valor e da diferença
cultural sob as formas do exotismo, a espetacularização, a estetização da
pobreza, etc., em prejuízo dos projetos igualitários e emancipatórios.
É freqüente falar do gosto pelo consumo do
exótico na Europa e na América do Norte. No entanto, e tal como aponta Francisco
Cruces (in Barañano et al., 2002), os fenômenos de exotização não são novos, os
norte-americanos se fartaram de ver Carmem Miranda com suas flores e suas frutas
na cabeça há muitos anos. O que provavelmente seja novo é o entendimento das
relações entre centro-periferia e moderno-tradicional: “o fato de que o
Reggae possa conectar as negritudes de diferentes continentes, ou que
apareça um Rap Bundu – que é um Rap hindu e paquistanês que surge
na Inglaterra por emigrantes ou filhos de emigrantes e que conecta esta geração
com seus ancestrais através das gírias, ou um Rock aborígene australiano,
ou um Pop sul-africano de distribuição pan-africana, são fenômenos que em
certo sentido são novos na medida em que reconfiguram ou rearticulam a relação
entre centros e periferias”.
Acredito que é preciso insistir, neste âmbito de
problemas, na crítica do multiculturalismo como uma ideologia que separa a
diferença cultural do conjunto das diferenças, que coloca entre parênteses as
desigualdades, a explosão do Terceiro Mundo e a opressão dos migrantes. Também
como um efeito ideológico da difusão da música massiva “globalizada”; e como
toda uma política cultural, por exemplo nos Estados Unidos. Segundo David Coplan
(2003), nos EUA o multiculturalismo é um procedimento para despojar a diferença
cultural de seu componente político. Por isso se animam as crianças das escolas
mexicano-norte-americanas e as organizações comunitárias dos estados do sudoeste
a recuperar seu legado de canções, trajes e história, mas não a levar em conta
suas raízes, suas desvantagens lingüísticas e de classe, nem a recordar a
realidade histórica de que o lugar em que hoje vivem pertencia ao México até
1848.
(5) Também são dignos de consideração os atuais
processos de conformação dos padrões de escuta, das novas modalidades de
recepção musical. Por um lado, ao longo do último século tem se modificado as
relações entre som direto e o som gravado (entre o acústico e o acusmático, para
utilizar as categorias de Schaefer, 1966). As gravações pioneiras do século XX
foram de apresentações ao vivo. Inclusive discos como o histórico Sargent
Pepper’s Lonely Hearts Club Band dos Beatles, publicado em 1967, simulava
ainda um concerto gravado. Hoje essas relações simulatórias têm se invertido e o
concerto deve se parecer com a gravação e não o contrário (Méndez Rubio, 1997).
Parece-me interessante observar os padrões de
volume sonoro que impõem os sistemas midiáticos de gravação e de reprodução.
Sempre me chamou a atenção ao escutar, por exemplo, um disco de Gustav Leonhardt,
que um cravo possa soar com a intensidade de um órgão de igreja e em um
primeiríssimo plano muito alheio à experiência sonora direta dessa classe de
instrumentos. Esses padrões sonoros também supõem expectativas receptivas e
estéticas; se alguém de repente escuta um cravo por debaixo desse volume
padronizado, parecerá que não soa bem. Nós ouvintes adquirimos hábitos de escuta
que precisam ser interpretados, novamente, partindo do ponto de vista das
lógicas industriais e
mercantis (ABRIL, in Barañano et al., 2002).
O etnomusicólogo brasileiro J.J. Carvalho propôs o
sugestivo conceito de equalização, que provém da técnica de sonorização, para se
referir aos padrões de homogeneização e de redução das diferenças culturais no
âmbito da cultura sonora.
(6) Para terminar esta exposição quero aludir à
tensão entre assimilação e resistência que se dirime na música massivamente
mediada. Um dos mais reputados estudos de sociologia do Rock, intitulado
Sound Effects, de Simon Frith (1981), já apontava esse paradoxo
constitutivo: o Rock é uma música que se produz comercialmente para
audiências massivas, mas está inseparavelmente unida a uma crítica do
comercialismo e da cultura de massa.
Num importante estudo da década de 70, Hebdige
(1979) diagnosticou que o “ruído semântico” produzido pela transgressão
sub-cultural (dos mods, dos punks e dos rastafaris) estava
sendo reintegrado, funcionalizado dentro dos ciclos de rotação do capital e de
seu mercado. São conhecidas suas observações sobre a “conversão dos signos
culturais” (roupa, música etc.) em objetos de produção massiva e mercadológica,
e sobre o “etiquetado” e a redefinição das condutas desviantes por parte do
estado e do mercado.
Mas ao mesmo tempo (como propõe Méndez Rubio,
2003: 111), a ideologia e a ordem social, a produção e a reprodução, não estão
nunca definitivamente fixadas nem garantidas. A resistência não pode ser sempre
reduzida nem automaticamente absorvida. Ao menos quatro gerações têm
re-empreendido a contestação das sucessivas formas ou correntes do Rock.
Assim aconteceu, por exemplo, nos anos 70 com o Punk, que revitalizou a
transmissão direta ou ao vivo, propôs uma visualidade obscena e provocadora
sobre o corporal e questionou os modelos de identidade sexual, quando o Rock
da geração anterior tinha evoluído para conceitos sinfônicos e despolitizados.
Assim acontece hoje, como analisa Méndez Rubio, com o Hip-Hop, que
reativa o potencial contraditório da cultura popular nas condições de uma
cultura massiva mundializada.
Tradução: Marina Quevedo
Revisão: Cimara Apostólico
Gonzalo Abril é professor da Universidad Complutense de Madrid, jornalista, autor dos livros "Teoría General de la Información" (1997) e "Cortar y pegar" (2003). Sua atividade de pesquisa dedica-se às áreas interdisciplinares de comunicação e imagem.
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