OS ELEMENTOS PÓS-MODERNOS
NA OBRA BRASILEIRA DE VILÉM FLUSSER
por Eva Batlickova
Nos anos 80, Vilém Flusser foi considerado na Europa um dos mais notáveis pensadores da chamada pós-história. Essa fama foi conquistada sobretudo graças ao seu livro Para uma Filosofia da Fotografia, publicado em 1983 na Alemanha. Nessa obra Flusser apresenta a sua tese sobre a chegada da nova época histórica relacionada com a transformação dos códigos da comunicação, da estrutura linear do texto escrito à estrutura cíclica das imagens técnicas. Apesar de esta teoria ter dado a fama para o seu autor, no fundo ela se afina com as discussões do seu tempo, não as transgredindo de maneira destacável. Por esta razão, estou convencida de que o pensamento de Vilém Flusser era mais original e transgressor no início da sua produção, isto é, na época da sua atuação no Brasil.
Flusser começou a publicar no final dos anos 50 e já nos textos daquele período pode-se encontrar na sua obra tal número de elementos pós-modernos que é possível designá-lo como um dos mais importantes pioneiros da pós-modernidade. Esta afirmação pode parecer um pouco exagerada, mas não o é se considerarmos que os primeiros trabalhos no campo da filosofia capazes de levar a denominação de pós-modernos começaram a surgir nos anos 60, na França. Ligam-se sobretudo aos nomes de Michel Foucault e Jacques Derrida, apesar da denominação filosofia pós-moderna ter sido formulada pela primeira vez em 1979 por Jean-François Lyotard.
Reconheço a excepcionalidade das idéias de Flusser nas condições em que elas foram produzidas. A ausência da formação filosófica acadêmica e a especificidade do meio brasileiro fomentaram a evolução muito individual do pensamento de Flusser, permitindo que ele não fosse contaminado pelas discussões universitárias mais rigorosas. No próprio início da sua auto-formação filosófica pode-se constatar a influência de três fontes. Em relação às fontes tradicionais, ele confessa a maior importância da fenomenologia husserliana e da filosofia da linguagem, ligando-as na sua obra ao método da análise lingüística fenomenológica. Esta idéia não muito singular radicalizou-se na obra de Flusser mediante a terceira influência: a da filosofia hindu a qual se dedicou nos anos 50. Mais tarde, ele pareceu se afastar dessa filosofia, vendo-a como uma espécie de ginástica mental; no entanto, creio que ela influenciou toda a sua obra posterior. Estou convencida de que precisamente a ontologia “assubstancial” e o desprezo em relação à lógica, do lado dela, libertaram o pensamento de Flusser das algemas da modernidade que dominava o seu tempo, empurrando-o na direção do discurso pós-moderno.
Wolfgang Welsh, no seu livro Nossa modernidade pós-moderna , define a pós-modernidade sobretudo como um estado de pluralidade radical. Radical no sentido essencial, isto é, não como um fenômeno parcial dentro de um horizonte, mas como um fenômeno que toca todos os âmbitos. Ele a avalia como uma fase histórica na qual a pluralidade radical torna-se a única realidade reconhecida. Com a idéia da pluralidade, liga-se também a aceitação da legitimidade de muitas concepções heterogêneas, dos jogos de língua e das formas de vida; uma pluralidade das formas de racionalidade relacionada com uma nova concepção de razão. O intento das páginas seguintes será demonstrar que estes pilares básicos do pensamento pós-moderno são simultaneamente premissas a partir das quais também Vilém Flusser constrói sua obra.
1. Pluralidade
A pluralidade, um dos temas principais, foi explicitamente analisada por Vilém Flusser, pela primeira vez, no seu livro escrito em 1959: A dúvida . A idéia da pluralidade é enraizada no próprio fundo da sua ontologia, quando ele afirma que a realidade percebida por nós não é nada mais que a realidade relativa às nossas línguas maternas. Por isso, para Flusser “realidade absoluta” é um termo vazio.
A sua concepção identifica o pensamento com as frases, o intelecto com o campo onde os pensamentos nascem e atuam, e a realidade com o cosmo organizado em oposição ao caos incaptável dos dados imediatos. Por isso, o pensamento e a língua não descrevem o mundo metalingüístico, ao contrário, se opõem a ele. A língua é um criador do cosmo como realidade plena de sentido, enquanto o indizível, como o caos dos dados imediatos, tem só o estatuto de mera potencialidade de ser. A língua é uma luz apontada para a escuridão, como nota poeticamente Flusser; ela é tudo o que indizível não é, por isso não existe uma descrição que se aproxime ou se afaste da realidade: se a realidade não tem uma essência, ela não pode ser captada pelo intelecto. O pensamento, ou se quisermos a língua, articula o indizível e delimita-o da sua própria escuridão. Por isso, existem tantos cosmos relativos quantas línguas com as suas regras gramaticais imanentes.
Assim, na teoria de Flusser a pluralidade figura no próprio nascimento da realidade. No entanto, também o modo de divulgação da realidade amplia ainda mais a pluralidade no âmbito de uma língua concreta. A língua extrai a realidade do indizível mediante a sua atividade poética, concretamente por meio da denominação. Os nomes têm na sua forma primordial a modalidade sacra (o exemplo típico deste nome cuja “meta-lingüisticidade” sentimos ainda hoje em dia se encontra na palavra Deus). A língua dessacraliza estas palavras primitivas pelo processo da conversação, que é na sua base um processo de abstração, e incorpora-as dentro do cosmo conhecido e ordenado. Vários níveis lingüísticos no âmbito da conversação respectiva diferem no variado grau de abstração; portanto a mesma noção tem um significado divergente nos vários planos da língua (por exemplo, nos planos da ciência, da ética, da arte etc.). Qualquer visão epistemológica total é a priori condenada ao fracasso graças à impossibilidade da tradução exaustiva de um plano lingüístico para o outro.
O livro Língua e realidade, que Flusser escreveu quatro anos mais tarde, é no fundo uma versão refinada e ampliada da teoria apresentada no livro anterior, mais precisamente uma ontologização completa dela, como o comprova a afirmação de Vilém Flusser sobre o nascimento da natureza com a própria língua. No entanto, do ponto de vista do tempo, ele coloca a natureza antes da civilização, porque a natureza originou-se com o nascimento de uma língua e deste modo existia já em decorrer da formação dela, enquanto a civilização surgiu no momento da realização completa da conversação. Neste contexto, já não nos surpreende a opinião do autor de que a fysis grega, ou a natureza percebida pelos falantes das línguas isolantes da cultura oriental, é absolutamente diferente da nossa natureza e para nós plenamente incompreensível e inimaginável.
A incomensurabilidade das realidades distintas baseia-se na intraduzibilidade fundamental entre os três grupos principais de língua, isto é, entre as línguas flexionais (com a construção lógica das orações e assim do mundo), as línguas isolantes (com as palavras plenas da aura dos significados metafóricos) e as aglutinantes (julgadas pelo autor absolutamente incompreensíveis para os falantes das línguas flexionais). A estrutura e o objetivo delas são divergentes de tal maneira que as frases de um grupo lingüístico figuram no campo do outro grupo só em forma dos dados imediatos: cada língua, ao traduzir outra, deve colocar esses dados dentro do seu próprio contexto. Este processo é o único caminho para compreender a realidade de uma comunidade lingüística absolutamente diferente, mas em detrimento da autenticidade da cultura diversa, porque uma cultura é captada pelo gabarito da outra cultura. Esta impossibilidade de tradução adequada é causada exatamente pela ausência do fundo substancial de realidades concretas inerentes às línguas respectivas. Porque, como já foi dito, a conversação é baseada nas palavras oriundas do indizível, assim nasce do nada, fala sobre o nada e, rumo à sua própria perfeição, tende novamente para ele. A prova deste opinião é o silêncio de Wittgenstein superando os limites da filosofia que encontra uma língua perfeita, e o silêncio de Buda, como um símbolo da sabedoria oriental.
Com certeza se pode objetar que os filósofos modernos já tematizaram a pluralidade dos jogos lingüísticos e a relatividade do conhecimento humano. Mas Flusser realizou um passo avançado rumo à pós-modernidade graças ao seu tratamento ontológico do problema da língua e graças à operação plenamente construtiva com o fenômeno da pluralidade. Na sua concepção da realidade, ele funda uma legitimidade indubitável das realidades incomensuráveis com que se juntam liberdade e direito de admitir discursividades diferentes. Ele põe em dúvida as próprias bases do pensamento ocidental, revela a lógica como uma qualidade da estrutura das línguas flexionais e desta maneira suspende a obrigatoriedade dessa lógica para o resto do mundo. Simultaneamente, remete a validade da ciência ocidental para o campo do sentido epistemológico limitado, que não é competente para confirmar a realidade em si, mas só as realidades concretas relativas ao nível discursivo apropriado.
2. Vilém Flusser e transversalidade
Um termo fundamental destacado pela pós-modernidade é, além da pluralidade, o conceito de transição. Vilém Flusser o utiliza na sua teoria da tradução autoral e o aplica em muitos dos seus trabalhos. Ele aproveita a impossibilidade da tradução absoluta, já mencionada, para virai-la a seu favor, porque descobre nela espaço para muitas dimensões de um tema concreto. Como afirma Rainer Guldin , a pluralidade de várias línguas abre para Flusser um caminho à complexidade da unidade de um problema concreto analisado.
Mediante seu método, Vilém Flusser tenta superar as limitações da língua materna. O seu procedimento é baseado na auto-tradução da sua obra para várias línguas. Flusser recorre a quatro línguas para a sua escrita, isto é, alemão, português, inglês e francês, cujas especificidades percebe de modo profundamente pessoal. Alemão é uma das línguas maternas de Flusser, assim como a mais próxima do seu coração (o tcheco, segundo o autor, era “doce” demais para nele poder ser escrita alguma filosofia séria); o português captava melhor a situação social do tempo no qual se engajou; o inglês capturava a situação histórica global. O propósito do seu método é revelar o maior número de pontos de vista oferecidos por essas línguas diferentes para o tema dado e simultaneamente comprovar a força da sua argumentação.
Este método da tradução múltipla não representa o empenho de encontrar “uma visão de deus”, uma meta-visão para o problema analisado, mas apresenta uma acumulação de muitos aspectos potenciais facilitados pela passagem de uma língua para a outra. As associações específicas ligadas com cada língua entrelaçam-se e produzem novas combinações de idéias. Aliás, o próprio Flusser confessa várias vezes, nos seus trabalhos, que ele se esforça só para esboçar um problema dado, mostrar os aspectos e as alternativas da sua solução, e não para dar uma solução consistente e absoluta. Então, constato que, apesar de Flusser não formular diretamente a questão da transversalidade, utilizava esse conceito no processo do seu trabalho criador.
3. A ética de Flusser
Nesta seção, vou ocupar-me do primeiro trabalho que Flusser escreveu, A história do diabo, acentuando sobretudo a ética baseada no sistema ocidental de pensamento. Vou tentar evidenciar que também a sua ética está de acordo com o postulado pós-moderno fundamental, o que contesta os juízos apriorísticos que insistem em considerar algum sistema moral como “melhor” do que um outro. Na perspectiva dos pensadores pós-modernos, Flusser ataca também o europocentrismo radicado nos valores cristãos e, conseqüentemente, combate as mais básicas meta-narrações da civilização ocidental.
O seu espírito cético em face dos valores cristãos aparece logo nos primeiros parágrafos do seu livro, quando define o divino e o diabólico. Logicamente, mas de maneira incomum, liga Deus com tudo que se encontra fora do tempo e com tudo que é individual, ao passo que o Diabo desempenha o papel do construtor da história, porque, em contraste com Deus, passou a existir a partir de um determinado momento e assim tem uma história. Apesar de Deus ser o criador e conservador do mundo do ponto de vista noumenal, do ponto de vista fenomenal, isto é, da perspectiva humana, ele é o destruidor do mundo, enquanto o Diabo é, neste nível, o seu protetor supremo. Por isso é o progresso real uma lavra do Diabo, trata-se de um combate prometéico de homem com deuses pelo fogo, de uma luta da qual são geradas todas as artes e as ciências. Desta maneira é a história humana a própria peripécia do Diabo. “Divinoso … age no mundo dos fenômenos para libertar esses fenômenos, para redimi-los, reduzi-los ao puro estar sem tempo, isto é, às ´coisas em si´. Porém, o diabo opera dentro do mundo para manter os fenômenos, para impedir-lhes de transformarem-se em noumenas.” Assim, o acesso ao Diabo é extremamente mais próximo para o homem, mais compreensível e sobretudo mais amigável, do que os propósitos misteriosos do Deus impenetrável e escondido na metafísica pura.
No seu livro, Flusser concebe os pecados cristãos tradicionais como etapas da evolução do espírito ocidental no seu caminho para Deus, para Diabo ou para o Nada, que na teoria flusseriana se confundem. Ele enumera os pecados concretos, começando pela luxúria, o primeiro pecado mediante o qual o homem ainda não se desvincula do seio caloroso da natureza, incluindo o amor entre as pessoas, mas também paixão pela literatura ou nacionalismo, eventualmente internacionalismo como uma simpatia pela gente em geral. A ira é um combate pela liberdade ética do homem, isto é, pela liberdade física, psíquica e política, baseando-se no esforço de tomar posse das leis da natureza. No plano da evolução da civilização, este pecado abrange também uma criação de nova realidade na forma de coisificação de símbolos em máquinas e em técnicas. A gula é apresentada como uma transformação da natureza problemática em natureza a serviço do homem. A inveja e avareza aparecem depois, como os princípios dinâmicos da sociedade. A inveja atua como princípio do progresso, produzindo uma hierarquia social, e a avareza atua como princípio de conservação, mantendo essa hierarquia. A dialética dos dois princípios forma a história social. Nesta fase evolutiva também ocorre a relativização do bem e do mal no nível social, transformando os valores conforme as vitórias provisórias da inveja ou da avareza. A soberba figura neste livro como uma vivência solipsista do espírito humano conscientizando plenamente a manejabilidade e fragilidade do bem e do mal, retorcendo sucessivamente os valores sociais. Trata-se de uma fase, quando o Deus e o Diabo tornam-se uma parte do único Eu e na qual nasce a arte livre da ilusão do bem e do mal. O último nível é a preguiça, ligada com a perda do devaneio em uma realidade nova submetida ao próprio Eu, revelando assim a falta do sentido e da finalidade no terreno do mundo. Conforme Flusser, é a preguiça o pecado mais grave, lançando o homem nos braços do desespero mais profundo. Isto é um niilismo e simultaneamente uma iluminação. Este plano inclui a ciência suprema que é, na opinião de Flusser, a matemática e, analogicamente, a arte suprema, que para o autor é a música. Este conhecimento, o mais alto acessível para o espírito ocidental, se confunde com a iluminação, com o nirvana, o cimo do conhecimento oriental. Outra vez aparecem na cena Wittgenstein e Buda, que representam para Flusser uma encarnação da sabedoria ocidental e oriental: os dois se calam em frente da mesma verdade, da mesma razão…
Assim, este é o método flusseriano de destruição dos valores cristãos tradicionais para os assimilar, no momento decisivo, com uma ética baseada aparentemente nos princípios opostos, os valores do budismo. Desta maneira o autor penetra até as raízes da própria humanidade, encontrando-se além do bem e do mal, até a humanidade cujo progresso é fatal, de tal modo que não pode ser domado por ideologia nenhuma. O espírito humano tem os próprios valores e tende para uma realização deles no próprio fim, independentemente da cultura respectiva. Na concepção de Flusser, decompõe-se a ética fundada no europocentrismo, daí se desembaraçando um espaço para a discussão a respeito dos valores naturais da nossa cultura e os das outras. Flusser aproxima-se da pós-modernidade também mediante a sua atitude frente à destruição da Unidade, no sentido da metanarração cristã sobre um único caminho para Deus, em que se vislumbra uma esperança para a vida digna da humanidade no mundo globalizado. Trata-se da prova de que Flusser superou o horror e pessimismo da modernidade diante da perda da Unidade.
4. Homo ludens
Um elemento muito simpático do pensamento pós-moderno é a ludicidade. Que também Vilém Flusser dispõe do espírito lúdico provam muitas vezes os seus trabalhos. Um exemplo típico do seu jogo com o leitor e com o público acadêmico encontramos na obra mais extensa e simultaneamente a principal da sua época brasileira, Língua e realidade. Logo na introdução apresenta o seu método conforme o que pretende proceder, a saber, a análise fenomenológica da língua com o objetivo de destruir os mitos tradicionais da metafísica ocidental. Apesar de já no decorrer da leitura ter o leitor uma oportunidade de duvidar da seriedade dos seus procedimentos científicos, pelo menos do lado formal o livro não sai do âmbito do trabalho acadêmico. No final da obra o autor nos informa, com o que podemos chamar de ligeireza tipicamente flusseriana, a respeito da sua resignação quanto à não-consistência lógica da sua teoria, e que toda a sua argumentação baseia-se na definição tautológica da língua e da realidade. No entanto, afirma que a deficiência não se esconde no seu procedimento de argumentar, mas na qualidade da lógica que, nos momentos decisivos, não é informativa. Assim, revelamos no método de Flusser um jogo com o discurso científico ocidental, mediante o qual ele tenta deslocar os limites desse discurso. Mas, visto que a consistência lógica é uma das qualidades básicas deste discurso, trata-se de uma tentativa pelo menos atrevida. Aliás, grande número de comentadores de Flusser designa o seu método como não-sério cientificamente, como um diletantismo ou uma mera provocação. Mas, quando observamos mais atentamente esse problema, descobrimos no método do autor um aspecto puramente programático.
Vilém Flusser revela a sua concepção de jogo nas últimas páginas do livro Fenomenologia do brasileiro, escrito em 1972. Na obra, ele distingue três tipos de estratégias que um jogador pode adotar diante de um jogo: no âmbito da primeira estratégia, ele joga com o propósito de vencer, arriscando ao mesmo tempo a sua derrota; se ele escolhe a segunda, joga de modo a não perder nada com a minimalização do perigo de debacle, mas também com a minimalização da chance para a vitória; e finalmente, o objetivo da terceira estratégia é transformar o próprio jogo, as suas regras. As duas primeiras estratégias incorporam o jogador dentro do jogo, que forma todo o espaço no qual existe, sem tomar consciência do fato de que se trata de um jogo. No contexto da terceira estratégia, o jogo é só parte da vida do jogador, ele se encontra fora do jogo; esta perspectiva lhe facilita manter uma distância constante e uma possibilidade de influenciar o próprio jogo.
Neste contexto, já não representa a resignação quanto à não-consistência lógica, do lado de Flusser, uma mera provocação, mas muito mais um empenho de marcar os limites estreitos da filosofia ligada pela lógica, que se livra de todo o campo dos significados e do sentido, que não cabem dentro deles. Afinal de contas, o discurso manejado pelas regras da lógica é só um dos discursos existentes; por isso seria conveniente, para a filosofia digna do seu nome ainda hoje em dia, livrar-se dos limites deste discurso único, que impede de avistar as outras possibilidades de discursividade como iguais em direitos e contributos. Deste modo, Flusser utiliza ativamente a terceira estratégia para o “jogo” da discussão científica ocidental, com o fim de penetrar nas regras e modificá-las. Ainda por cima é evidente que a obra de Flusser não é uma teoria pura, mas que se dirige pelos seus princípios na própria prática de escrever. Como confessa, o livro Língua e realidade não foi escrito no nível da língua científica, que pertence, conforme a sua concepção da fisiologia da língua, à camada da conversação submetida aos princípios da lógica, mas no nível mais alto, que é a camada poética com qualidades como abertura e criatividade. Desta maneira, tenta libertar a sua obra da esterilidade da rígida filosofia acadêmica e a leva para o nível da filosofia acessível aos novos impulsos.
Em jogo diferente, mais próximo do termo brincar, Flusser atua mediante a forma dos seus ensaios, nos quais se dedica à análise do problema do tempo. Ele encontrou um novo horizonte para a filosofia no gênero da ficção filosófica que criou, próxima, pelo seu caráter metafórico, das obras filosóficas clássicas. Assim, Flusser descobre uma outra via para colocar a filosofia acima do âmbito da ciência tradicional. Ele tenta adaptar a filosofia ao momento do conhecimento humano, reconhecendo que os limites da ciência estreitamente prisioneira da lógica e da pura racionalidade não são os limites de todo o horizonte vital; mostra que a humanidade precisa criar um novo âmbito, mais amplo, para poder captar a sua situação existencial e social.
Sem dúvida, é exatamente a concepção de Flusser da filosofia como um jogo que lhe permite atravessar as fronteiras da própria filosofia, avistar e exprimir os fatos que os seus contemporâneos ainda não percebiam. Ainda por cima, acho a ludicidade de Flusser o seu mais alto potencial, pois abre o seu pensamento ao pós-moderno. Esse caráter lúdico lhe oferece um horizonte para aproveitar o anti-essencialismo e a “impreconceitibilidade” da filosofia oriental, um empenho para a pureza filosófica, do lado da fenomenologia, e revelação do potencial criador da língua, do lado da filosofía analítica, esforçando-se por atingir a síntese delas. E é outra vez este espírito lúdico de Flusser que lhe facilitou transgredir uma modulação negativa da modernidade e encontrar as novas receitas não-tradicionais num horizonte novo, no horizonte lúdico da pós-modernidade.
5. O ensaio como um gênero pós-moderno de Flusser
Prestemos agora a nossa atenção no próprio estilo ensaístico de Flusser: a ficção filosófica como modo autônomo de expressão, interessante por duas razões. Do lado formal, é um passo transversal rumo a uma nova síntese dos vários gêneros, do lado de conteúdo acentua com maior freqüência uma destruição dos mitos da sociedade ocidental atual.
Como outros autores de ensaios, também Flusser escreve os seus com o intento de penetrar o núcleo de um problema analisado. Mas o que é original é a maneira como procede. Os seus ensaios são na maioria dos casos fábulas ou metáforas, isto é, ficções. Mediante o seu método da ficção filosófica, o autor evita a forma tradicional de submeter um problema a uma análise lógica, mas, por intermédio de uma narrativa fictícia, cria um quadro muito colorido, deixando-o afetar o leitor. A forma da ficção filosófica relaciona-se também muito estreitamente com a visão ontológica de Flusser, porque ele está convencido de que a nossa própria realidade é uma ficção, demonstrando-o, conforme expectativa, pela metáfora.
Ele traz o exemplo de uma mesa com os livros, que é do ponto de vista da realidade dos sentidos um objeto firme, consistente e sólido. No entanto, a mesma mesa é, do ponto de vista da física teorética, um campo eletromagnético e gravitacional praticamente vazio, sobre o qual flutuam os outros campos chamados “livros”. A questão de qual dos dois pontos de vista é verdadeiro carece de significado. Se tentarmos penetrar na essência do objeto de maneira a livrá-lo das várias camadas de ficções, não restará nada, do mesmo modo que não restará nada da cebola livre de todas as suas camadas . A afirmação de Flusser de que a ficção é realidade admite a relatividade e a igualdade de todos os pontos de vista possíveis a ela. Esta é a razão porque os seus ensaios são sobretudo quadros com a disposição de acumular e apresentar os argumentos sem tentar concluir as opiniões de maneira indubitável.
Uma visão relativista do nosso mundo, que analisa detalhadamente nas suas obras teóricas mais extensas, apresenta nos seus ensaios de maneira a levar o leitor para mundos totalmente diferentes, oferecendo-lhe um ponto de vista distinto do mundo dele. Com esta intenção, utiliza várias formas: no ensaio Um Mundo Fabuloso, deixa falar três entes. O primeiro, um octópode, um darwinista de corpo e alma, acumula argumentos incontestáveis a favor da tese de que a sua espécie é o topo da evolução. Um oponente dele é uma solitária conhecedora de Freud que propõe argumentos do mesmo valor, porque é justamente ela o tope evolucional. Um terceiro ente é um embrião de homem admitindo o fato que, tanto do ponto de vista de Darwin como do de Freud, não é dotado de maneira ótima, mas chega à conclusão que a grandeza humana consiste exatamente na insuficiência biológica e frustração libidinosa, que lhe oferecem a capacidade de alçar-se ao nível espiritual de vivência. Naturalmente que, depois de ler este ensaio, a maioria de nós vai se inclinar para o lado do homem, mas nos conscientizamos com surpresa da relatividade do termo “perfeição”. Vilém Flusser brinca ainda mais com o leitor no ensaio O Mito do Cubo, onde nos obriga a transformarmo-nos, pelo menos imaginariamente, no sal de cozinha, mais exatamente, a tentar penetrar dentro da existência do sal como um centro do mundo, como um centro do nosso projeto. Em poucas páginas desenvolve a ontologia, a ética e a estética desse mundo, com a finalidade de apresentar ao leitor uma caricatura das nossas teorias sobre o nosso próprio mundo, os buracos e as imperfeições dos mitos egocêntricos da civilização ocidental.
Nestas poucas linhas não é possível captar os ensaios de Flusser de modo mais completo e um estudo do seu âmbito complexo exigiria uma análise muito mais pormenorizada. Nosso objetivo foi só demonstrar que os ensaios de Flusser são permeados do espírito pós-moderno. Tal espírito manifesta-se inconfundivelmente na superação dos gêneros filosóficos tradicionais, resultando um gênero novo e um acesso crítico em face dos mitos da cultura ocidental.
6. Pós-moderno ou pós-histórico?
Como já observamos no início deste artigo, Flusser é considerado tradicionalmente pós-histórico e, apesar de se tratar de designação muito posterior à época pela qual nos interessamos hoje, seria produtivo pôr a questão de em que medida foi o pensamento de Flusser pós-histórico e, em que medida, pós-moderno.
Wolfgang Welsh coloca uma fronteira relativamente decisiva entre a pós-história e a pós-modernidade. Ele vê como traços distintivos o pessimismo, a passividade e uma certa perda de perspectiva da pós-história, e o optimismo e a atividade, no lado da pós-modernidade. O problema de um enquadramento de Flusser consiste na variabilidade das suas opiniões nos contextos diferentes. Mas a verdade é que Flusser, nos seus trabalhos avançados, utiliza em princípio o termo pós-história, que descreve como uma época vinda com a transformação dos códigos, como observamos no primeiro parágrafo deste artigo. O advento das imagens técnicas trazia consigo o modo cíclico da percepção do tempo, destruindo a própria potencialidade do progresso e todas as novidades e “amanhãs melhores” que perseguimos, mostrando-os como somente um vórtice numa superfície de água morta. Assim, deste ponto de vista, Flusser é pós-histórico, sem dúvida. A sua atitude é só refinada por reconhecer uma possibilidade de esperança no empenho de decodificação das imagens técnicas, deste modo libertando-se da hegemonia delas e recriando novas dimensões apropriadas para a vida humana.
No entanto, um obstáculo muito importante à pretensão de enquadrar Flusser como pós-histórico encontramos no livro Fenomenologia do brasileiro que já mencionamos, onde ele conceitua a história como um dos jogos e coloca em oposição o pensamento histórico e o lúdico. Quem pensa historicamente, percebe a história com todas as suas leis e conseqüências. Quem pensa ludicamente, toma distância frente à história a ponto de que ela não exista em sentido próprio. No pensamento lúdico, inerente ao novo tipo de homem denominado o homo ludens, Flusser ainda por cima vislumbra uma possibilidade de remédio para a sociedade atual orientada pela tecnologia e pela globalização. Homo ludens é aquele que aproveita a terceira estratégia para o seu jogo, buscando modificar as regras do jogo e deste modo acalentando a esperança de sair do tempo cíclico das imagens técnicas. Neste contexto, enfrentamos uma única tese indubitável de Flusser, isto é, a tese de que tudo é relativo, tanto a história como a pós-história, mesmo o enquadramento inequívoco de Vilém Flusser.
Conclusão:
O propósito do meu trabalho foi o de revelar os elementos pós-modernos nas obras brasileiras de Vilém Flusser e ponderar a possibilidade de denominá-lo como um filósofo pós-moderno no momento em que as escrevia. As páginas anteriores provam evidentemente a orientação da sua primeira fase criativa sobretudo para a desmitologização das metanarrativas da cultura ocidental, avisando dos perigos escondidos no dogmatismo e no europocentrismo, para a ontologização dos problemas ligados à língua e para a relatividade do conhecimento humano captadas até então só epistemologicamente, isto é, os temas pós-modernos par excellence. Naturalmente pode-se objetar que podemos encontrar os elementos pós-modernos também em autores muito mais antigos do que Flusser, e não há razão para os incorporar dentro da corrente pós-moderna. A fragilidade da transição entre modernidade e pós-modernidade é intensificada ainda mais pela concepção da pós-modernidade como a mera radicalização da modernidade do século 20 que funda desta maneira a diferença delas só na questão de medida. Por isso, estou convencida de que é necessário acentuar mais um traço importante, aproximando Flusser dos pensadores pós-modernos a partir de sua própria experiência existencial.
Na idade de 18 anos, a sua vida pessoal foi invadida de maneira decisiva por uma das “maiores conquistas” da razão instrumental trazida pela modernidade, na forma dos assassinatos de massa, ou, melhor dizendo, dos assassinatos industriais nos campos da concentração da Segunda Guerra Mundial, nos quais encontrou a morte toda a sua família. De maneira dolorosa, Flusser se conscientizou de que não se tratava de uma anomalia, mas sim de uma conseqüência lógica da racionalização de todo o ser. A racionalização esmagava a ordem natural pela argumentação lógica, pela observação constante e pela manipulação artificial. Ele percebeu que se tratava de “... um fenômeno do mundo com uma capacidade extraordinária de melhorar a situação humana mediante a re-ordenação dos assuntos humanos na base racional .“ Por isso, não é surpreendente que Flusser tenha consagrado toda a sua vida ao esforço de encontrar um modo de inverter este rumo estabelecido. Como poucos na sua época, ele opinou que o mundo não usou esta tragédia para se transformar, porque o mesmo mecanismo vem se aperfeiçoando durante anos e atualmente recebe as suas formas mais sofisticadas. Por esta razão Flusser esforçou-se, com um sentido de urgência excepcional, tanto no âmbito da sua escrita mas também mediante a sua vida, para sair do espaço perigoso da modernidade e tornar-se um dos espíritos decisivos que procura levar a sua época rumo ao mundo da pós-modernidade mais tolerante.
Eva Batlickova - formada pela Faculdade de Letras na Universidade Masaryk em
Brno na República Checa em Filosofia e Língua e Literatura Portuguesa. Atualmente
pesquisa e escreve seu doutorado em Filosofia, tendo como tema a obra da época
criativa brasileira de Vilém Flusser.
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