Não se podia vê-los lado a lado sem perceber seus contrastes, e continuo sentindo fortemente essa mesma dissonância quando olho as fotografias antigas ou quando evoco lembranças. O que saltava aos olhos à primeira vista era a diferença de tamanho, assim como a do estilo e do ritmo dos seus movimentos. Minha mãe, que media apenas um pouco mais de um metro e meio, era compacta e parcimoniosa em seus gestos, reunindo em torno dela tudo aquilo de que precisava com muita eficácia. Gregory, que atingia um metro e oitenta e cinco, tinha passado boa parte de sua juventude procurando dissimular os centímetros que possuía a mais mantendo curvadas as costas, não sabendo o que fazer com o seu tamanho nem com suas pernas compridas. Revejo-os sentados ao meu lado, numa coberta estendida no chão, ao ar livre. Gregory tem os joelhos dobrados, o cotovelo apoiado sobre o joelho erguido... Margaret está sentada sobre uma anca, as pernas recolhidas, sua saia meticulosamente disposta ao seu redor, como uma amazona montada num cavalo, as mãos juntas sobre seu peito - e ela se debruça para frente, no calor da discussão. Seu físico encolhido permitia mil refúgios: podia instalar-me com toda tranqüilidade sobre os seus joelhos ou ainda me agachar contra ela, sobre o divã, quando nos fazia uma leitura em voz alta. Aos olhos de uma criança, o corpo de Gregory evocaria mais uma gaiola que um ninho. Dito isto, o cume da glória era o fato de me encontrar empoleirada sobre seus ombros, erguida acima da multidão, obrigada a abaixar a cabeça para passar sob as portas ou os ramos das árvores.
Seus ritmos eram também muito diferentes. Margaret era rápida e segura de suas intenções à medida que o dia avançava como se ela seguisse uma agenda onde cada atividade estava fixada. Aparentemente incansável, nunca desperdiçava sua energia. Encerrava bruscamente as conversas telefônicas e, raramente, se detinha para dizer um adeus, uma vez que já havia se colocado em uma nova trajetória. Os dias de Gregory estavam cheios de coisas adiadas e de momentos de abandono ao devaneio, quando permanecia brevemente desocupado antes de mobilizar novamente toda sua estatura em vista da atividade seguinte. Seus pés constituíam a seu olhar longínquas colônias, afastadas de suas preocupações; tornaram-se cada vez mais insensíveis à medida que avançava na idade, e acabou por calçar seus sapatos, tanto no verão quanto no inverno, sem meias. Muitas vezes seus pés permaneciam no ar, emergindo das cobertas, nas camas que eram pequenas demais para o seu tamanho.
Quando relembro de meus pais, vejo suas mãos. As de Margaret eram pequenas e delicadas, com minúsculas meias-luas na raiz das unhas; elas se movimentavam de maneira simétrica diante dela, a palma virada para o alto enquanto ela falava, e voltando-se para ela quando a frase terminava. Margaret dava a impressão, por assim dizer, de oferecer simbolicamente seus seios na palma de suas mãos, convencida de que nos alimentava mesmo no decorrer da discussão mais violenta. As mãos de Gregory eram espetaculares, angulosas, com dedos compridos que acabavam com grossas unhas descoloridas. Servia-se delas de maneira assimétrica quando se expressava, e uma de suas mãos podia dessa maneira permanecer no ar, esquecida após um gesto esboçado"[25].