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Centro Interdisciplinar de
Semiótica da Cultura
e da Mídia


Ghrebh-
Revista de Semiótica, Cultura e Mídia




O Pós-humano e sua narrativa: a ficção científica


por Ieda Turcherman





""Senhor...se não restam mais humanos, que ao menos restem robôs-Ao menos a sombra do homem!"
Karel Capel, R.U.R. (Rossum's Universal Robots), 1920



NOVAS SUBJETIVIDADES: CONEXÕES INTEMPESTIVAS

Com tonalidades diferentes, que vão do diagnóstico eufórico ao vaticínio apocalíptico, dos exercícios futuristas às manifestações de terror e fascinação (que constituem a "música" do nosso "sublime tecnológico") poderíamos apontar um enunciado como o mais constante entre os pensadores atuais: as fronteiras que, para a experiência ocidental moderna, forneciam os parâmetros a partir dos quais o homem experimentava o mundo e a si mesmo, mais do que tornadas incertas, foram erodidas, constituindo para a atualidade uma outra e nova configuração.

Assim, as antigas dualidades cultura e natureza, humano e não humano (animal ou máquina), natureza e artifício, corpo e espírito, orgânico e inorgânico, real e simulado, que a modernidade vivenciou como jogos de oposição, constituindo sua tipologia estruturante, onde se jogava o jogo dos limites e das transgressões possíveis, estão hoje imbricadas neste universo onde a tecnologia aparece com uma dupla presença: condição de possibilidade e agente da passagem para um novo contexto.

Portanto nos defrontamos com a historicidade dos limites e com a evidência de que pertence ao modo de atuação da tecnologia uma dinâmica permanente de constituição e transformação das fronteiras.[1] Como isto só se tornou visível a partir dos hibridismos contemporâneos, podemos propor como ponto de partida um duplo movimento teórico: à substituição das oposições pelas imbricações corresponderia a passagem da tipologia à topologia, o que é o mesmo que falar da crise da diferença como lógica de sentido e do novo princípio de conexão.

Considerando que a técnica é o ambiente e o motor desta transformação, o que está comparecendo é uma imediata alteração da nossa relação com a técnica: enquanto a pensávamos como instrumento (o nosso artefato técnico), ou mesmo como prótese, ou seja, como nossas extensões, o interesse residia na realização, cada vez melhor e mais rápida das ações desejadas. Insuficiente para definir nossa sociedade como tecnológica e explicar nossa história como remetida à técnica: de fato, o que se alterou foi o conjunto de formas de experiência de si[2], do mundo e do outro a partir da integração da técnica enquanto mediadora: nem o homem nem o mundo permanecem os mesmos, o que tem como conseqüência inevitável a pergunta sobre quais são hoje as experiências possíveis? se quisermos ir mais longe, podemos, eticamente, acrescentar: quais são as experiências necessárias e quais são as desejáveis, não para garantir qualquer estabilidade (incompatível com a lógica técnica) mas para aproximar "nossos saberes dos nossos poderes" [3]? . Dizendo de outra maneira, o que é e o que pode ser a nossa subjetividade pós-humana?[4]

Modernidade e Humanismo

Estamos apontando uma diferença com o nosso mais próximo passado, já que, em termos genéricos, podemos considerar a modernidade como sendo o triunfo do humanismo nas mais sofisticadas acepções deste termo, uma vez que a referência é tanto a construção deste homem do humanismo como a da sua celebração, que pode ser descrita brevemente como sendo a de uma subjetivação do mundo e uma correlata mundialização do sujeito. No entanto convém pensá-lo na sua problematização: todo conceito protagoniza uma tensão com a sua ausência (ou falta, na terminologia mais cara à Psicanálise) e, se o humanismo tinha como tema latente o desembrutecimento do ser humano através da aposta na "leitura filosófica humanizadora, criadora de consciência, contra as sensações e embriaguez desumanizadoras" [5] e portanto a sua separação de qualquer animalidade, este homem também aparece como aquele animal cujo corpo abandona suas funções, sendo este abandonar o mesmo que fazer técnica.

A relação homem-técnica tinha uma particularidade histórica fundamental, expressa na definição do homem como "deus dos artefatos", posição vinculada a um dos paradigmas fundadores da modernidade que enunciava que só compreendemos completamente o que fazemos: o princípio do verum ipsum fatum ou verum fatum, também conhecido como O conhecimento do criador.[6]

A introdução deste princípio de criação humana estabelece, como seu complemento lógico, a idéia de experiência, que será tão cara ao mundo moderno, tanto epistemológica quanto ontologicamente uma vez que, produzindo mudanças na natureza como no campo social, é o que abre a diferença do presente para o futuro. Não é sem motivo que um dos motes mais freqüentes neste universo seja o termo revolução, cuja origem remonta à Revolução Copernicana, mas que acaba por ter um valor de signo vinculado à dimensão de um acontecimento que sendo, "rememorativo, demonstrativo e prognóstico de um progresso permanente, arrasta o gênero humano em sua totalidade" [7].

Kuhn observa: "Antes de 1590, o arsenal instrumental das ciências físicas consistia apenas em dispositivos para a observação astronômica. Os cem anos seguintes testemunharam a rápida introdução e exploração de telescópios, microscópios, termômetros, barômetros, bombas de ar, detentores de carga elétrica e muitos outros dispositivos instrumentais" [8].

Vemos assim- e até pelo amplo espectro de sentido que termos como experiência e revolução abarcam- que há uma importante e radical relação entre os caminhos da produção de subjetividade e a força e validade dos procedimentos científicos adotados. O pensamento moderno opera uma ruptura profunda no saber, no homem e em sua nova relação com a ciência e a natureza que se radicaliza a partir do século XIX, quando a mobilização da ciência pela indústria articulada ao desenvolvimento técnico passa a se dedicar a explorar novas possibilidades, gerando uma "ciência do futuro, do devir" [9], diferente da ciência clássica, do ser.

A produção de novas tecnologias expande a cartografia dos espaços conhecidos e suas possibilidades de experimentação, provocando deslocamentos nos modos de experiência e interiorização do homem. Existe, portanto, uma correlação inextricável entre os três acontecimentos que fundam a modernidade: a consolidação das ciências e de um imaginário técnico-científico, sobretudo a partir dos avanços tecnológicos da revolução industrial; o modo de ser do homem e sua constituição como sujeito autônomo e a produção de uma experiência espaço-temporal que problematiza a relação do homem com o presente, concebendo o futuro como o lugar das mudanças e da realização dos projetos.

EXISTÊNCIAS E EXPERIÊNCIAS: POSSÍVEIS E MUDANÇAS

Trata-se de estar diante de desafios próprios, que talvez possam ser expressos por uma questão central: qual é o estatuto da diferença entre real e possível, e, se nem tudo que é possível se realiza, o que é que determina a realidade? Que experiências são possíveis e necessárias para afirmar outras e novas existências?[10]

Parece pertinente recorrer a uma tipologia de formas de existência vinculadas à lógica da possibilidade. O que parece constituir o processo de pensar limites e transgressões expõe, certamente, movimentos de expansão e contração no campo dos possíveis e, sem dúvida, a técnica será agenciadora tanto da criação de novas possibilidades quanto da de novas existências ou de existências modificadas e/ou deslocadas de suas anteriores formas, funções e constrangimentos. Teríamos então: possibilidades lógicas, físicas, biológicas e históricas.[11]

Começando pela lógica, que é a mais tolerante, já que sua condição, segundo a tradição filosófica, exige apenas poder ser descrita sem princípio de contradição. Talvez seja aquilo que chamamos de quimeras, seres imaginários que poderão ou não tornar-se novas existências físicas. Pensando na história da ficção científica, filha do imaginário técnico-científico da modernidade, esta teria sido um fértil celeiro de existências lógicas tornadas possíveis: o campo da robótica, da inteligência artificial, da biotecnologia e mesmo o da sócio-política foi antes fabulado do que produzido.

As existências físicas seriam vinculadas aos princípios de presença material, e, curiosamente são apresentadas pelo negativo: "Qualquer forma de vida pode dever sua ausência a uma de duas razões. Uma é a seleção negativa. A outra é não terem aparecido as mutações necessárias." [12] Vale lembrar que a técnica é um agente de mutação e aceleração, fazendo o homem distanciar-se do animal e agenciar-se com a máquina; numa terminologia mais metafórica, o que teríamos hoje seria a passagem do homem para o ciborgue, o pós-humano, como nova física?

Quanto às possibilidades biológicas: tudo que é ou foi, seria obviamente possível. Será? Como pensar hoje nos dinossauros fora dos laboratórios de paleontologia, de inteligência artificial ou dos filmes de Spielberg? No entanto existiram como presença física. "Parece que poderia haver dois graus de impossibilidade biológica: violação de uma lei da natureza biológica (se existe uma) e "mera" entrega bio-histórica ao esquecimento." [13]

Finalmente as possibilidades históricas, onde a relação entre estas e as correspondentes impossibilidades concernem apenas a uma questão de oportunidades transmitidas [14]: Poderia acontecer alguma coisa que não acontece atualmente? As utopias foram a resposta filosófica e narrativa a esta pergunta e a esta possibilidade. O investimento tecnológico foi o seu motor e complemento: uma de suas modalidades de ação, a possibilidade de expandir radicalmente as condições espaço-temporais.

Senão vejamos: a modernidade começou a ganhar do espaço pela velocidade, construindo estradas e estações espaciais, automóveis e aviões supersônicos, ônibus espaciais, sondas interplanetárias, satélites, etc; o homem pousou na lua (o primeiro evento técnico vivido como espetáculo), erradicamos doenças, encontramos a estrutura do DNA (a marca biológica dos nossos vínculos), descobrimos as partículas subatômicas, inventamos o micro-chip. Mapeamos o mundo terrestre e o que se situava além dele: a Lua, Marte, parte de Vênus, as luas de Saturno, etc. Nossa compreensão do espaço físico estendeu-se para a cartografia da totalidade da estrutura cósmica.

No outro extremo, físicos de partículas dedicaram-se ao espaço subatômico, pesquisando os átomos, os núcleos e depois os quarks no coração da matéria: o universo físico, infinito, foi explorado em todos os níveis: na vasta escala das galáxias e nas menores partículas.

Mais ainda: neurocientistas, através de scanners mapeiam o espaço do nosso cérebro, explodindo a relação visível/invisível, interior/exterior, vivido/em potência.

Para a ciência moderna o mundo físico seria a totalidade da realidade e sua visão do espaço buscou estender-se, por isto, infinitamente, em todas as direções, apropriando-se de todos os possíveis e concebíveis territórios, sendo esta, indubitavelmente, a origem do ciberespaço[15].

Ora, apesar da conexão inextricável entre os três acontecimentos fundadores da modernidade, que são, como já desenvolvemos, a consolidação da ciência e de um imaginário técnico-científico a partir dos avanços da Revolução Industrial; o modo histórico de ser do homem e sua constituição como sujeito autônomo e a produção de uma experiência espaço-temporal voltada para o futuro, ao separar homens, animais e máquinas; cultura, natureza e artifício em dualidades e oposições, o pensamento moderno impediu-se de pensar as imbricações entre estes campos e as implicações disto para o pensamento, para a subjetividade e para os modos de experiência possíveis.[16]

Mesmo a aposta na experiência, com seu enfoque de atividade, elaborou-se de maneira triádica: as ciências experimentais, a experiência de si no pensamento e as possibilidades de experiências abertas tanto no plano individual quanto no projeto coletivo. Esta separação organizou uma divisão curiosa entre a epistemologia e a ontologia modernas (diante da qual as chamadas ciências sociais e humanas pendulavam), que a nossa atualidade nào poderia suportar.

No entanto, esta co-presença dos três acontecimentos fundadores forneceu as condições de possibilidade de uma forma de narrativa moderna e marginal que lida com imbricações entre homem, tecnociência e futuro. A ficção científica, sendo uma forma literária (e, posteriormente cinematográfica), não respeitou os constrangimentos da epistemologia nem a demarcação das suas fronteiras, sendo por isto, talvez, quase premonitória.

UTOPIAS, MUNDO MODERNO, TÉCNICA

Temos assim, de um lado, a modernidade sonhando com a realização da utopia pela irreversibilidade da flecha do tempo, o mito do progresso e do progresso da razão e, de outro, a ficção científica fabulando utopias, distopias e heterotopias, construindo suas histórias tendo como temas hibridismos entre homens, animais e máquinas assim como experiências em inusitadas configurações espaço-temporais.

E, uma vez que a epistemologia moderna separou o natural do artifício, o homem da máquina, a ciência da cultura, só pode entender a máquina como mero instrumento, sempre exterior, nunca imbricado no humano. Pensou, portanto, a relação homem-máquina considerando a máquina como instrumento de opressão ou libertação , capaz de favorecer a realização do sujeito no futuro ou impedi-la: a relação entre racionalidade técnica, produção de subjetividade e futuro é apreendida como otimizando ou deteriorando as condições de realização do homem, este projeto humanista moderno.

Não é então algo que possa provocar espanto o encontro das interrogações filosóficas do nosso tempo, que não podem prescindir das condições eminentemente tecnológicas da sociedade atual e do modo como a experiência humana se dá em novas condições de produção da subjetividade, com a ficção científica, do qual falaremos mais adiante.

FICÇÃO CIENTÍFICA E ATUALIDADE

Na sua organização tipológica, geradora de uma lógica de oposição e diferenças, o próprio termo ficção científica seria um oxímoro, já que da expressão participam procedimentos de natureza totalmente diversa: o ficcional e o científico.

Ora, a ficção não tem os compromissos da ciência : nenhum projeto de atuação prática, não sujeita às provas de falsificação nem às de verificação, tendo exercido, no entanto, especialmente o romance moderno, o que Steven Johnson[17] chama de "cultura da interface", que realizaria um projeto de tradução, ou mediação, entre o desenvolvimento tecnológico e a vida cotidiana.

Esta interface atua criando um campo metafórico para a "apresentação" das novas máquinas; atividade que tem uma longa e memorável tradição, cada época lidando com a tecnologia mais recente através do recurso às representações mentais de coisas mais antigas e familiares. Em geral, isto assume uma analogia entre máquinas e organismos[18], tais como indica em Dickens, Thoreau e Thackeray, por exemplo, na forma de tradução literária e depois no cinema, onde, no início, os filmes de Charles Chaplin são exemplos acabados deste movimente, basta pensarmos em Tempos modernos. De qualquer modo, a ficção vive no mundo de existências lógicas, passíveis de serem imaginadas, desobrigadas de tornarem-se físicas.[19]

No termo conjunto, ficção científica, tanto a oposição se desvanece quanto indica a sua forma de atuação: basicamente a da produção de misturas. Podemos dizer que a modernidade formulou na ficção científica suas suspeitas diante das possibilidades existentes nos hibridismos entre homens, animais e máquinas, gerando versões possíveis de nós mesmos, ainda não concebíveis, fazendo com que sobre nós ou ao nosso lado tivéssemos a sombra do nosso eu como o outro dos mundos possíveis. [20] Ou seja, a ficção científica deveria "Descrever a vida tal como não a conhecemos" [21].

"Estamos falando, neste caso, de formas inteiramente novas de subjetividade. Estamos falando seriamente sobre mundos em mutação ou que nunca existiram antes, neste planeta. E não se trata simplesmente de idéias. Trata-se de uma nova carne." Donna Haraway[22]

Que é este conceito híbrido de ficção científica? Qual o seu interesse para uma filosofia contemporânea ou para uma "antropotecnologia futura"?[23] Seguindo Sloterdijk, a ficção científica interrogando sobre novos modos de ser e estar em "novos mundos", seria capaz de apontar que as próximas etapas do gênero humano serão períodos de decisão política quanto à espécie. Recuperando o grande tema da tragédia grega, ele afirma, que 2500 anos depois não apenas os deuses mas também os sábios nos abandonaram, deixando-nos sós com a nossa ignorância e nosso parco conhecimento das coisas.

Não muito divergente de Hermínio Martins[24] que, definindo a radicalidade da transformação, comenta que não se trataria mais do fantasma da máquina mas de máquinas fantásticas, cujo funcionamento escapa ao saber tecnológico e às possibilidades dos processos cognitivos humanos. O homem não seria mais então o deus dos artefatos?

Outras vozes se inserem num movimento que se repete: o da celebração da vitória da técnica e o correlato medo que ela escape ao homem. Uma espécie de novo "mal-estar da civilização" faz sintomas e aflora em comportamentos e textos que não podemos ignorar. Neste diagnóstico de perda de referências, um dos mais estimulantes foi o descrito por Engensberger[25]: à perda das utopias que caracterizou o período final dos anos 60, passando por uma "ressaca" decadente entre as décadas de 70 e 80, correspondeu, no final dos anos 90 , uma transformação curiosa: as atuais promessas não chegam mais de filosofias políticas ou políticas da história; o novo otimismo fantástico, o novo projeto utópico, sai dos institutos de pesquisa e dos laboratórios das ciências naturais, onde se anuncia a vitória sobre as imperfeições e carências da espécie sobre a estupidez, a vida e a morte: as fantasias de onipotência da genética, da robótica e da inteligência artificial.

O novo triedro dos saberes seria formado pela Biologia, as Ciências da Cognição e as Ciências da Computação: a imortalidade sendo hoje assunto para biólogos moleculares e geneticistas ou para cientistas da informação que "sonham" como Hans Moravec no polêmico Mind's Children, no download da nossa mente em um computador como sendo nossa próxima verdadeira e imortal descendência.

De início, os resultados são mais modestos dos que os prometidos. Parecem repetir o esquema da mania que, sucedendo uma depressão, caracteriza-se pela perda de realidade. E, indo mais longe, o que vemos hoje é que o contrário da vida não é a morte mas a imortalidade.[26]

De qualquer modo, é cada vez mais difícil, lembra Enzensberger, separar a grande ciência da ficção científica e, assim , não seria por acaso que parte da atual equipe de pesquisadores chama seu horizonte cultural a partir de séries de TV, como Jornada nas Estrelas, por exemplo.

Parece-nos injusto; sobre este prisma a ficção científica foi mais comedida e menos eufórica: vale lembrar a numerosa presença de utopias negativas ou distopias como outro "pontos-de-vista" ou diferentes imagens dos futuros mundos possíveis.

Há provavelmente um encontro mais importante da ficção científica com as interrogações filosóficas atuais (tecnologia, sujeito e espaço-tempo), que se realiza por meio de duas práticas científicas: o experimentalismo e a curiosidade, que a primeira exercita em suas narrativas.

"A filosofia terá a consciência do amanhã, o parti-pris do futuro, ou ela não terá mais nenhum saber" Ernst Bloch[27]

Qual seria o interesse da ficção científica para a filosofia? Se não houvesse nenhum outro dado que legitimasse esta pergunta, apenas a referência à presença de frequentes menções e análises de narrativas de ficção científica em obras de Daniel Dennett, Bruce Mazlish, Katherine Hayles, Donna Haraway, Isabelle Stengers, seria já uma constatação. Mas podemos estabelecer uma visada mais contundente, elaborando um conjunto de perguntas capaz de cartografar o conexo campo de interesse: Como o conceito híbrido de ficção científica relaciona-se com os conceitos filosóficos do último século? A ficção científica seria mais articulável às correntes de pensamento pós-modernas ou tecno e ciber culturais? A ficção científica seria a continuidade dos gêneros utópicos? Quais as relações entre ficção científica e cultura, ficção científica e tecno-ciência e entre ficção-científica e filosofia da técnica? E, para completar, qual a relação do imaginário da ficção científica com o imaginário místico ou religioso?

Impossível dar conta num artigo de tais respostas. Apresentamos, até agora, parte destas relações a partir das articulações de sujeito-técnica-espaço-tempo e suas produções. Para uma aproximação mais evidente, vejamos uma seleção dos temas mais freqüentes na ficção científica, apontados por Gilbert Hottois[28]: o fim-do-mundo e o fim dos tempos; os paradoxos temporais; a comunicação com "inteligências" demonstrando "formas de vida" radicalmente diferentes; as desconstruções múltiplas das diferenças entre natural e artificial, humano e não humano, vivo e não vivo, real e virtual; as mutações e reconstruções dos corpos humanos; as transformações do político.

Poderíamos dizer, secundando Isabelle Stengers, que a filosofia contemporânea e a ficção científica tem semelhança na medida em que não podem se poupar do risco do pensamento criativo.

Duas grandes tendências fariam parte dos textos filosóficos e das narrativas de ficção científica : a primeira seria uma tendência "metafísica", ligada à modernidade e a certas atuações da tecno-ciência tais como as explorações e viagens no tempo e no espaço: em ambas a tecnociência é apresentada como sendo capaz de conduzir a humanidade à sua destruição ou metamorfoseá-la numa "superhumanidade" quase divina.

A segunda, começa a se afirmar a partir dos anos 60 (embora tenha precursores) e consiste em explorar a sociedade humana num futuro ou um "ailleurs" [29] razoavelmente próximo: ficção social, ficção política, eco-ficção, geralmente pouco afastadas da utopia ou da anti-utopia (distopia); este imaginário encontra o pós-modernismo e as concepções sócio-construtivistas das ciências.

Hoje, a proposta de alguns filósofos e críticos é o conceito de uma "ciência-em-ficção", onde tratar-se-ia de por em cena, via romance, teatro ou cinema, "episódios dramáticos" reais da pesquisa tecnocientífica, mostrando a importância das circunstâncias, eventos, fatores sociais, políticos, psicológicos e econômicos, linha de análise que Isabelle Stengers, Bruno Latour e mesmo Donna Haraway, entre outros, tem defendido em seus textos e artigos.

O conceito de "ciência em ficção" tem sua história inaugurada no diagnóstico exposto, já nos anos 50, por C.P.Snow, escritor e cientista, do mal-estar da nossa civilização, dissociada entre uma cultura literária tradicional e uma cultura científica futurista, incapazes de se comunicar entre elas.

Haveria, finalmente, uma co-naturalidade entre a ficção-científica e a filosofia contemporânea (esta mesma atravessada pela introdução da tecnociência em seu pensamento)? Se há na filosofia a questão do parti pris do futuro e da curiosidade ou espanto, aquilo que desde Platão, por violação, obriga o pensamento a pensar, então sim. Há. Ouçamos ,a esse respeito depoimentos de escritores de ficção científica:

"O que conta num bom romance de ficção científica não é nem a ciência nem a ficção, mas a hipótese filosófica sobre nossa natureza, nossos poderes, nosso olhar no universo, nossos devires e nossos fins." Jean Louis Curtis[30]

"A ficção científica é uma forma de escritura contemporânea que utiliza elementos fantásticos ou inventados para especular sobre a sociedade, a humanidade, a vida, o Cosmos, a realidade e todos os outros temas relevantes da categoria geral filosofia". Judith Merrill[31]



Ieda Tucherman é professora da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro.




Notas

(1)Talvez possamos traduzir esta afirmação em termos deleuzianos, para os conceitos de territorialização, desterritorialização e reterritorialização.    volta

(2) A idéia da experiência de si tem como fonte os textos de Michel Foucault, especialmente os dois últimos livros , O uso dos prazeres e O cuidado de si.   volta

(3) Referência a vários textos de Michel Serres, exemplarmente enunciado na conferência Sagesse, do livro Éclaircissements, entrevistas a Bruno Latour, 1992.   volta

(4) Utilizamos o prefixo pós na influência de seu uso por Peter Sloterdjk, em Regras para o parque humano, 2000.    volta

(5) Sloterdijk, opus cit, p.17.    volta

(6) Martins, Hermínio, 1998.   volta

(7) Foucault, Michel, 1984.    volta

(8) Kuhn, T. 1989,p77-78.   volta

(9) Stiegler, Bernard, entrevista a J.B.Miranda, revista eletrônica Interact, número 1.   volta

(10) Tucherman, Ieda, Breve história do corpo e de seus monstros, Lisboa, 1999: permito-me remeter ao livro onde trabalhei a produção dos corpos e de suas alteridades os monstros, como determinadas e exigidas por condições histórico-culturais determinadas.   volta

(11) Na ordem proposta por Daniel Dennett, O possível e o real in A perigosa idéia de Darwin, Rio de Janeiro, 1998, p 109 a 129.   volta

(12) Ridley, MarK, in Dennett, opus cit, p.109.    volta

(13) Dennett, D., opus cit, p.111.    volta

(14) Percebe-se a herança do "neo" darwinismo nesta colocação de Dennett.    volta

(15) Não é sem motivo que Margaret Wertheim em The pearly gates of cyberspace, compara o ciberespaço com o espaço imaterial e duplo do Paraíso de Dante.    volta

(16) Veja-se, Latour, Bruno, 1994.    volta

(17) Johnson, Steven, 2000. "   volta

(18) Procurei mostrar em Breve história do corpo e de seus monstros, 1999, o imenso campo de metaforizações surgidas a partir da idéia ( conceito) de corpo e que falam do corpo social, político, da saúde da economia, da circulação das cidades, etc, portanto isto não seria privilégio apenas do romance moderno, embora este tenha outra presença na vida comum.    volta

(19) Isto não diminui seu potencial de influenciar as vidas e as mortes reais dos leitores , basta pensarmos no efeito de Os sofrimentos de jovem Werther, de Goethe que inaugurou uma moda de suicídio "estético".    volta

(20) Haveria aí uma curiosa afinidade com a psicanálise, apresentada por Johnson, opus cit: o conto de Hoffman, O homem de areia, "uma mistura de Jane Eyre e David Cronenberg" foi a inspiração de Freud para o ensaio e o conceito do estranho-familiar, Umheilich. Hoje, o mesmo conto seria a expressão literária que fala do perigo e da sedução de confundir homene e máquinas, a ciberandrogenia.    volta

(21) Serres, Michel,s/d.    volta

(22) Haraway, Donna, 2000.    volta

(23) Sloterdijk, opus cit, p.44.    volta

(24) Martins, Hermínio, opus cit.    volta

(25) Engensberger, Hans Magnus, Golpistas no laboratório, caderno Mais, jornal Folha de São Paulo, 9/9/2001.    volta

(26) Veja-se I.A, Inteligência Artificial, o filme de Stanley Kubrick e Steven Spielberg, baseado nos contos de Brian Aldiss.    volta

(27) Bloch, apud Bouchard, Guy, in Science-fiction, utopie et philosophie: l'art de s'étonner, 2000.    volta

(28) Hottois, Gilbert, Philosophie et Science-Fiction, org Hottois, 2000.    volta

(29) A literatura on the road foi outra das expressões desta tendência , visível na associação das drogas com as viagens.    volta

(30) Curtis, Jean Louis in Philosophie et Science-Fiction, p.4Curtis, Jean Louis in Philosophie et Science-Fiction, p.48.    volta

(31) Merrill, Judith idem,p.48.    volta

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